28 fev
Viseu

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Mais do que rostos, são as mãos que afastam a pandemia

por Redação

06 de fevereiro de 2021, 08:00

Foto Igor Ferreira

São cinco testemunhos de quem sente e vive com a realidade do novo coronavírus, desde o início da pandemia. Falamos de quase um ano a combater um inimigo que, ao que parece, “se vai tornando mais forte”. Cansaço? Sentem-no de uma maneira ou de outra. Mas, há quem não perca a esperança 

CLIPS ÁUDIO

Quando Carla Pedro, Joana Pires, Vitor Figueiredo, Inês Oliveira e António Fernandes concordaram em conversar connosco, sabíamos que iríamos ouvir palavras ásperas e enrugadas que nos fariam sentir algo. O quê? Não sabemos ao certo. Talvez revolta ou tristeza. Por vezes, uma mistura de ambas. Ao conversar com cada um, tornou-se impossível desviar o olhar das mãos de quem insiste em afugentar a pandemia. Têm relevos diferentes, mas lutam no mesmo terreno: a Covid-19. O receio também lhes está nas mãos. Na verdade, fazem-nas tremer. E depois transformam-o, sempre com as mãos. Em quê? “Coragem e força para continuar e nunca baixar os braços”. 

Carla Pedro, voluntária na Liga de Amigos e Voluntariado do Centro Hospitalar Tondela-Viseu

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Estava nervosa. Mesmo com máscara, mostrou-nos um olhar tímido. Talvez reticente. As mãos também estremeceram. Contou-nos que é voluntária há cerca de dois anos e advogada também. E por isso, divide-se entre o escritório e o Hospital de Viseu. Antes da pandemia, “vinha às quintas-feiras à hora de almoço, entre as 12h00 e as 13h00”, para o apoio à refeição.

Com os primeiros casos de Covid-19, “tudo foi suspenso” e os horários dos voluntários alargaram-se um pouco. “Agora, venho sempre que há necessidade de um reforço”, disse Carla Pedro, acrescentando que “neste momento, estou a vir à quarta-feira ou à sexta-feira, das 10h30 até às 13h00”, para apoiar os doentes nas entradas com a desinfeção das mãos e “em tudo que o hospital nos solicitar”. 

Não entendemos logo como é que as mãos de Carla, que nos vai explicando a sua rotina, encontram “sempre um bocadinho” para ajudar quem realmente necessita. Costuma dizer que “entre estar num restaurante a conversar mais um bocadinho ou a tomar um café mais alongado”, prefere apoiar os doentes até porque “é nestes momentos mais difíceis que precisamos de reforçar a nossa colaboração”, assinalou.

E aí percebemos. É a sensação de “dever cumprido”. “É ficar mesmo com o coração cheio”, confessou. Vimos-lhe o olhar a humedecer enquanto nos diz que nem sempre se trata do auxílio físico, “mas a verdade é que às vezes basta um olhar ou uma palavra de conforto”.

Com a pandemia, o toque perdeu-se e o simples olhar obrigou-se a multiplicar-se para que “percebam o nosso calor humano”. Muitas das vezes, é o suficiente para pessoas mais frágeis e vulneráveis. Enquanto voluntária, é da opinião de que o papel da Liga de Amigos do Hospital de Viseu passa por relembrar às pessoas de que é importante continuar a recorrer aos serviços de saúde, independentemente da pandemia. 

“Confesso que receio acho que todos temos. Medo? Não tive porque vejo que há efetivamente segurança”, lança, entre as perguntas que lhe fomos colocando. Na verdade, ao longo da conversa, o olhar tímido foi desvanecendo e deu lugar ao verdadeiro sentimento de “amor pelo próximo”. Mas, as mãos continuaram sempre a mexericar. Também nos disse a razão: “eu sou a primeira a levantar o braço, isso sim”, garantiu a voluntária. 

Perguntámos-lhe se a família se preocupa por estar numa da entrelinha da chamada ‘linha da frente’. Entre gargalhadas, respondeu-nos: “Posso dizer a verdade? Nem lhes digo que venho para eles não se preocuparem”, rematou. 

 

Joana Pires, auxiliar de serviços gerais no Lar da Associação de Solidariedade Social de Farminhão

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Recebeu-nos com um sorriso escondido atrás da máscara. Já não veste “aquele macacão muito complicado”. “E parece que é mesmo verdade”: depois de um mês, o lar de Farminhão está livre da pandemia. Joana Pires tem apenas 23 anos e “vai fazer três anos que trabalho com idosos”. Reveste-se de uma energia imensa. Talvez seja isso que não a deixou baixar os braços. “Fui a única da minha equipa que testou sempre negativo”, sublinhou a auxiliar. Podemos até dizer que é a exceção. 

O início do surto não foi fácil. Foram muitos os colaboradores que ficaram infetados e, por isso, não havia outra opção a não ser “trabalhar e aguentar o serviço para não deixar os idosos e a equipa desamparada”. Nunca hesitou: “Tratar deles? Sempre”. 

E não parava. Trabalhava 12 horas por dia “o que não é brincadeira”.  Pareciam-lhe horas sem fim que, desde o primeiro caso positivo à Covid-19, corriam cada vez mais lentamente em cada recanto do Lar de Farminhão. “Ficaram todos em isolamento nos seus quartos e enquanto não chegou a equipa de socorro, tivemos que desenrascar com elementos da unidade, elementos do infantário e do apoio”, explicou Joana Pires, admitindo que “foi muito pouca gente para tantos utentes”. 

Não desistiu de tentar travar todos os obstáculos que se atravessavam no caminho de cada utente. Às vezes, por muito que se esforçasse, “não chegava”. “Desanima um pouco porque estamos a lutar para que eles consigam superar a situação e começamos a ver que o vírus está a levá-los”, estremeceu, antes de regressar ao bom-humor que a caracteriza. 

Relembrou o silêncio que se fazia sentir no lar. Tudo fechado, vazio e, sobretudo, escuro. Não no sentido literal da palavra, mas “pelo ambiente que se fazia sentir”. E o sofrimento era o único som que enchia os corredores e “dá um  bocado de receio, não é medo, não dá mesmo para explicar”, suspirou, até porque “um geme, outros choram e nós ouvíamos tudo isso”.

Mesmo depois de todos estarem negativos à Covid-19, Joana Pires não esquece a morte de uma utente com apenas 57 anos. Não faleceu pelo novo coronavírus, mas por outras patologias. “Marcou-me porque era das mais fortes que tínhamos, passou por muita coisa, lutou contra o vírus, sobreviveu e, agora, do nada faleceu”, lamentou, cabisbaixa. 

Quando soube que estavam livres da pandemia, a primeira coisa que Joana fez foi “tirar o macacão, isso foi a melhor coisa”, admite, não esquecendo “o facto de os utentes conseguirem vir para a sala e conviver entre eles, foi muito bom”. 

Teve sempre as mãos enluvadas e só poderia terminar a conversa da mesma forma: com uma fotografia que mostrasse “um bocadinho do que passámos”. “Acima de tudo, é manter a força e não desistir”, concluiu. 

 

Vitor Figueiredo, presidente da Câmara Municipal de São Pedro do Sul

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São quase 16:30 de uma simples quarta-feira. Meia hora se passou e conseguimos conversar com o presidente da Câmara de São Pedro do Sul, Vitor Figueiredo. Já se sabe: é a azáfama do dia a dia de um autarca. Percorremos escritórios vazios, alguns cheios de encomendas, até chegar a uma sala de reuniões.

Em instantes, esbarrámos contra um  muro de caixas com uma quantia considerável de material de proteção individual. Em números, correspondem a 24 mil máscaras cirúrgicas e seis mil luvas de nitrilo. “Temos ajudado os nossos bombeiros, as nossas IPSS, a própria GNR, através de material que conseguimos trazer da China, mais propriamente de Macau”, lançou o autarca, a abrir uma das caixas. 

A conversa fluiu e Vitor Figueiredo admitiu que, desde o início da pandemia, não arredou pé da Câmara Municipal e procurou estar onde era preciso: perto da população, “a ponto de estar em contacto com algumas pessoas infetadas”. Ainda hoje o faz. 

Além de ser responsável da Proteção Civil, é da opinião de que “os presidentes de câmara e de juntas de freguesia são pessoas que também estão na primeira linha e que efetivamente vão acompanhando todas as situações”, garante, frisando que “todos os dias nos deparamos com pessoas que estão confinadas ou infetadas e que não têm a possibilidade de ir fazer as suas compras e tratar daquilo que necessitam”. 

Grande parte da população de São Pedro do Sul começou a sentir os efeitos da pandemia por volta das celebrações do Natal e Passagem de Ano.  As dificuldades e necessidades aguçaram-se. “E a verdade é que as pessoas começaram a contactar-nos”, inclusive o próprio presidente da câmara, “através do Messenger, mensagens particulares ou até telefonemas”, confessa, relembrando que, na verdade, está 24 horas ao serviço, seja por que motivo for. 

A explosão de novos casos diários nas primeiras semanas de janeiro, mobilizou a autarquia para um único sentido: “ajudar a população”, não apenas na questão da saúde, mas também na redução do preço da água, a oferta de computadores a estudantes que não tenham equipamentos, entre outras medidas sociais. 

O autarca não esconde a pouca preparação que tinham para “esta realidade completamente diferente daquela que tínhamos há um ano”. Apesar de se manter a atividade habitual de uma Câmara Municipal, existe “o acréscimo do apoio social que estamos a prestar a essa população”.

As mãos de Vitor Figueiredo enchem-se de pedidos de população, medidas que têm que ser tomadas e situações que têm que ser resolvidas. Acaba por conseguir dar resposta a todos. Porquê? Em poucas palavras, “não vou deixar que a população de São Pedro do Sul passe necessidades e que lhes falte a comida ou medicamentos”, garante. “Temos sempre a porta aberta”, remata o autarca.

 

Inês Oliveira, psicóloga clínica no Centro de Vigilância Ativa, em Lamego

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Ainda não bateram as nove da manhã e Inês Oliveira já estava numa das salas do Centro de Vigilância Ativa, em Lamego. Começa o dia a contactar pessoas que tenham estado em contacto com casos positivos à Covid-19. As mãos de Inês fazem à volta de 60 chamadas por dia, para “perceber se as pessoas estão ou não com sintomas. Se sim fazemos um encaminhamento e se não dizemos que, de facto, têm que fazer o isolamento profilático”, explicou, com o olhar a desvendar alguma timidez.

É psicóloga clínica e, “apesar de estar um bocadinho distanciada da minha profissão”, acaba por dar algum apoio emocional a quem necessite. Há dias, “liguei a um contacto que tinha acabado de perder um familiar por causa da Covid-19 e posso-lhe dizer que esse contacto demorou 45 minutos”, confidenciou, admitindo que as chamadas variam de acordo com a gravidade do caso e que procura “dar sempre aquele conforto”. 

Também há que ter paciência até porque “há pessoas que se opõem a fazer algumas coisas e temos que estar ali a tentar sensibilizar”, contudo, há outras que “estão muito bem informadas e sabem o que têm que fazer”. 

E dificuldades? Há sempre algumas situações que marcam. E Inês não esconde a sua inquietação perante uma “situação bastante dura”: Contactou com uma mãe que tinha acabado de perder um filho e que esteve em contacto com uma pessoa positiva à Covid-19. “Ela própria já estava numa fase de solidão e acabar por se isolar dos restantes membros da família. É muito complicado”, suspirou, até porque “não há palavras certas e cada caso é um caso”. 

“Obrigada por ter ligado, já não tinha uma chamada há tanto tempo”: é o que se ouve do outro lado da linha. E se vale a pena? No fim do dia, “apesar de cansada, fico com o coração cheio”, ressalvou. 

 

António Fernandes, agente funerário, em Oliveira de Frades

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Recuando um ano, ninguém adivinharia o que por aí viria. De repente, tudo se precipitou: as primeiras infeções pelo novo coronavírus e, consequentemente, as primeiras mortes. António Fernandes já fez dez funerais de vítimas de Covid-19 e, nas entrelinhas da nossa conversa, percebemos que se tornou um trabalho que “exige muito mais de nós a nível psicológico e também ao ter que lidar com os próprios familiares”. 

A palavra que mais lhe ocorre cada vez que pensa nesses momentos é “frio”. Aliás, “muito frio”. E volta a repetir porque ele próprio não chega a ver quem morreu. O corpo nu “vem dentro de um saco e é enfiado num saco dos nossos, já dentro da urna”. António vai sempre protegido com dois pares luvas, bata, fato, perneiras, touca, óculos de protecção e viseira. A sua única tarefa é selar a urna. A partir daí, ninguém pode abrir o caixão. Repletos de restrições, “os funerais com a Covid-19 são diretos ao cemitério e essa parte é muito complicada”, lamentou. 

“Senhor António, tem a certeza que era o meu pai?”, uma questão que não tem  uma resposta, “e que nós tentamos responder ao reconfortar”. Na realidade, os familiares têm de confiar que a funerária traz o corpo certo. E a funerária tem de confiar que o hospital lhe deu o corpo certo. É difícil, mas “temos que tentar fazê-los compreender que é mesmo assim e essa parte é dolorosa, principalmente quando são pessoas mais jovens”, adiantou, frisando que “uma perda é sempre uma perda”.

Mesmo com dez anos de experiência, para António Fernandes também é um cenário assustador, “quase saído de um filme”. “Usamos muito a palavra receio, mas a gente tem medo”, admite, com um leve nervosismo. “Com os primeiros, é um bocadinho mais assustador. Agora, não quer dizer que o medo não esteja lá, porque está, mas está mais camuflado”, explicou, a encolher-se. 

Pesa-lhe não conseguir preparar o corpo “não só pelo facto de deixar uma imagem mais leve à família, mas pelo facto de dar dignidade à pessoa”, confidencia, “e isso dá-nos um certo alento”. Com a Covid-19, essa preparação perdeu-se e “tornou-se tudo muito frio”, insistiu. 

Para ele, os funerais têm um papel. No fundo, são um ritual de passagem para uma nova fase. Permitem o luto. Em plena pandemia, partem sem a despedida de um ente querido. “É completamente diferente, é um cenário de tristeza”, concluiu. 

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