28 fev
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Os enfermeiros que traçam o terreno seguro da Covid-19

por Redação

13 de fevereiro de 2021, 08:00

Foto Igor Ferreira

CLIPS ÁUDIO

Foi lá, no Centro Hospitalar Tondela Viseu, que Elisabete Figueiredo, Ana Catarina Pereira e Hélder Patrício viram o seu trabalho a crescer, desde março. Foi também lá que se uniram para tomar as decisões mais difíceis da pandemia e foi igualmente lá que tiveram de aprender a reagir e a preparar todos os protocolos, circuitos, procedimentos de higienização para a abertura de alas para utentes positivos à Covid-19. No fim do dia - que não tem bem uma hora definida -, não existe um botão para desligar a realidade que se vive no Hospital de Viseu. Na verdade, “é um desassossego constante”. 

O telefone não pára de tocar e “às vezes o cansaço é tanto” que “muitas das vezes sonho com o hospital, agora é mais com camas, no início da pandemia, era com os equipamentos de proteção individual. Era um sufoco e uma preocupação imensa”, suspira a enfermeira Elisabete. Sentem os três o mesmo, discordam às vezes, mas no fim “a decisão ter que ser unânime” e a positividade está lá. Riem muito estas enfermeiras. A conversa que era para durar no máximo uns meros dez minutos estendeu-se por mais de uma hora, com direito a uma visita guiada ao espaço da Comissão de Controlo de Infeções e Resistências aos Antimicrobianos (CCIRA), uma equipa que, antes da Covid-19, passava despercebida pelos outros profissionais de saúde. 

Não foi tarefa fácil combinarmos uma hora para falar, “principalmente porque a Catarina esteve 14 dias ausente”, justifica Elisabete. É o seu braço direito e “não foi muito fácil passar sem ela 14 dias”, admite, reconhecendo, entre gargalhadas, que “tudo que é extra hospital, eu falho quase sempre”.

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Quando conversámos o enfermeiro Hélder não estava. Regra geral, “estamos sempre dois presentes e dizemos quase sempre a mesma coisa”, assinala a enfermeira Elisabete, admitindo que preferem tomar as decisões em conjunto. Por isso, reúnem diariamente e “mesmo que, às vezes, podemos não estar de acordo, mas depois temos que chegar a um consenso e todos dizermos a mesma coisa”, acrescenta a enfermeira Catarina Pereira. 

Cada vez que existe a necessidade de abrir um novo serviço com doentes positivos ao novo coronavírus, alguns dos profissionais de saúde não estão preparados e têm as suas dúvidas e questões e “nós tivemos que ir e marcar serviço”. Por exemplo, no dia da nossa conversa, o enfermeiro Hélder entrou às 8h30 “e esteve quase três horas na diálise” porque no sábado anterior (dia 6) abriu uma nova ala para utentes com Covid-19. É uma situação que acontece quase diariamente e é preciso “alterar a dinâmica do serviço” para que tudo flua normalmente, com todos os procedimentos de segurança. 

Na verdade, as zonas sem vestígios do vírus são também uma preocupação para a CCIRA. “Nas zonas ‘não Covid’ surgem pontualmente doentes positivos, no meio dos outros. Isso é um stress muito grande nas equipas porque estão a tratar de doentes ‘não Covid’ e, de repente, aparece”, adianta a enfermeira Elisabete. 

“Não podemos esquecer que uma enfermaria tem quatro camas, se está um doente positivo nessas quatro camas, dependente do tempo que lá estão, os outros três também têm que ser testados e são considerados contactos de risco. Depois, temos que andar a reajustar, ou seja, é uma gestão diária de camas”, completa a enfermeira Ana Catarina. 

E as horas a mais? De facto, existe um horário, mas que não é cumprido. Cada um dos três enfermeiros, ao fim de cada mês, tem cerca 100 horas a mais. “Por dia, depende. Há dias em que fazemos mais uma ou duas horas e depois o que se prolonga até casa”, esclarece, garantindo que “tentamos dar o nosso melhor, todos os dias”. 

No início da pandemia, o receio era não haver equipamentos de proteção individual (EPI) para dar aos profissionais. De facto, houve uma altura em que existia dificuldades na aquisição de EPI. “Nunca tivemos falta, felizmente”, mas o ter que “dizer a um profissional que tem que prestar cuidados sem equipamento de proteção individual, nós que sempre batalhámos o contrário, é muito complicado”, sublinha Ana Catarina. 

E aí a insegurança aguça-se. A partir daí, “tivemos que controlar um bocadinho as máscaras, os respiradores de partículas e temos que controlar ainda agora”, refere, a dar voz à enfermeira Elisabete: “e mesmo a solução alcoólica também tivemos que controlar. Não podíamos ter junto das áreas comuns porque desapareciam. Foi um bocadinho difícil”. 

Os serviços reconverteram-se em. Aos poucos, foram apoderaram-se de outras áreas do hospital e “acho que as pessoas ficaram muito assustadas”. Apesar da Covid-19 “ter chegado um bocado atrasada a Viseu”, “toda a gente estava desconfiada e ninguém sabia o que era”, lança, não esquecendo o investimento que foi feito na formação multidisciplinar dos profissionais de saúde. 

De repente, o simples “vestir e despir” era uma dificuldade para muitos profissionais. “É uma prática que nós, enfermeiros, aprendemos na escola. Mas, nessa altura, foi engraçado porque o simples facto de tirar uma luva, os profissionais tinham dificuldade e não sabiam o que que como haviam de tirar a luva”, exemplifica, entre sorrisos com a enfermeira Ana Catarina. 

Recordaram também o primeiro doente suspeito de estar infetado com o novo coronavírus que chegou ao hospital. Na realidade, não passava de um suspeito e veio a testar negativo. “Ligou-me o enfermeiro que estava de coordenação, que era o enfermeiro Jorge Melo, e eu vim para o hospital às 23h00 porque os colegas da medicina não sabiam o iam vestir”, explica, a recordar a imagem de Sandra Ferreira a pegar “no seu cadernito” e a dizer ‘tenho aqui várias dúvidas’. Era o primeiro doente e “ficaram muito mais tranquilos depois da nossa conversa”. 

Já a enfermeira Ana Catarina relembra os primeiros doentes que entraram que na Unidade de Cuidados Intensivos Polivalente (UCIP). E também o primeiro óbito. Mas, sem medos. “Acaba por ser um doente a falecer como, infelizmente vemos muitos outros doentes”. Como já tinham todos os procedimentos delineados, “não houve assim grande alarido”, confessa, avançando para a saída de uma nova norma que permite que o corpo pode apenas ir num lençol ou apenas em um saco, algo que anteriormente teria que ser feito em duplo saco. 

É um cenário frio e extenuante. Neste momento o maior desafio da Comissão de Controlo de Infeções e Resistências aos Antimicrobianos já não é a gestão de serviços ou abertura de novas alas. Mas, a gestão dos equipamentos de proteção individual. “A gestão de EPI deve ser a pior, principalmente os respiradores de partículas porque toda a gente utilizar, seja nas áreas clínicas seja a prestar com doentes com Covid ou sem Covid”, refere Ana Catarina, “é sempre um conflito que temos que gerir porque acham que se sentem mais seguros”. 

No caso dos profissionais que ‘vivem’ no sétimo piso do Centro Hospitalar Tondela Viseu (CHTV), “que já estão nisto há um ano”, o cansaço domina o dia a dia e “estão um bocadinho exaustos”. No entanto, para o serviço ter uma maior margem de manobra “têm entrado profissionais, nós damos formação e são integrados na equipa”. 

A realidade é que muitos dos serviços não chegam a sentir a verdadeira pressão, apenas que “têm mais trabalho, que os doentes são diferentes, mas essa pressão é muito sentida por nós e pelo Conselho de Administração”, sublinha Elisabete, a assumir que “não me deitava antes de ver o número camas que tinha no Hospital e mandar uma mensagem a dizer ‘Temos 17 ou temos 18, podemos dormir mais descansados’. 

Deitam-se a pensar no número de camas e acordam a questionarem-se ‘Como estará o hospital?’. “Essa gestão não é fácil”, lamenta. E Ana Catarina segue o raciocínio: “Mesmo no Hospital, de uma forma geral, nunca esteve descontrolado. Foi preocupante? Foi. Mas, acima de tudo, estamos a fazer um bom trabalho”. 

Mesmo com o número de novas infeções diárias a baixar e os internamentos e mortes a acompanhar, o alívio ainda não se sente na Comissão de Controlo de Infeções. A pressão de alguns serviços diminui quando deixa de ter utentes positivos à Covid-19, mas “o alívio que as outras pessoas sentem, não é bem o nosso alívio”, revela Ana Catarina. 

“Viemos agora de um serviço da cirurgia C, por exemplo, que tinha doentes positivos, que deixaram de ter agora esta semana. Fizeram a higiene terminal, digamos assim, para receber agora doentes não Covid-19. Realmente eles vão sentir um alívio, mas nós acabamos sempre por ajustar a nossa dinâmica”, exemplifica, enquanto desvia o olhar para o telefone que, durante a nossa conversa, esteve sempre “calminho”. 

E onde encaixam a parte pessoal? Elisabete tem dois filhos, um com 19 anos e outro com 23, “e perceberam a situação e foram acompanhando. Nunca se afastou da família, mas admite que no início foi uma possibilidade. “Na altura, ainda pensei em dormir noutro quarto, mas temos alguns comportamentos redobrados e foi uma decisão conjunta”, esclarece. 

Já a enfermeira Ana Catarina tem duas filhas “mais pequeninas”, uma com oito anos e outra com dois. Para ele, ‘o chegar a casa’ não é bem chegar a casa. “Chegamos, sentamos e o telefone toca, ou seja, é estar ali e não estar. É complicado”, refere, relembrando que “houve muitos profissionais que optaram por não estar com a família, nós não. Foi uma decisão, mas temos os cuidados também”. 

“Isto tem sido todos os dias uma grande ginástica e um grande esforço”, lança Elisabete, a desviar o olhar para o seu braço direito, a enfermeira Ana Catarina. Mas também falta o seu outro braço: o enfermeiro Hélder. “Funcionamos muito bem em equipa e isso facilita um bocadinho”, remata Ana Catarina. 

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