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"Podem ter a certeza de que os Bordados de Tibaldinho não vão acabar"

por Redação

17 de outubro de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

São quase sessenta anos a tratar por tu a peça de artesanato mais característica do concelho de Mangualde. É na aldeia de Tibaldinho, freguesia de Alcafache que a bordadeira Cidália Rodrigues celebra diariamente esta forma de estar na vida. Rima o verbo bordar como ninguém e confessa ser a Fé que a ajuda a ultrapassar os momentos mais difíceis. Quanto aos sonhos, diz ter um: ver nascer na sua aldeia o Museu dos Bordados de Tibaldinho

É com Fé em Deus e na esperança de não deixar morrer a arte que Tibaldinho lhe ensinou, que Cidália Rodrigues se tem agarrado para continuar, quase seis décadas depois, a bordar. 2003 podia ter sido fatal. Neste ano o atelier onde esta artesã trabalha um verdadeiro património vivo sofreu um assalto. "Levaram-me tudo". Nessa altura, Cidália tinha dois filhos a estudar na universidade. A vida complicou-se. "Chego aqui um dia, estava sem nada. Sem nadinha". À pergunta "como é que se volta à vida", Cidália diz ter usado um trunfo: a Fé. "Lembro-me sempre que, se acordar, já vivi um milagre: estou viva. Olho sempre para o lado positivo. Mesmo estando em baixo há-de haver sempre alguém que nos levanta", refere.

Das peças expostas que naquele dia lhe foram roubadas, perdeu-lhes o rasto. Nunca mais as viu. Mas a tal Fé, o amor à profissão e a família fizeram Cidália Rodrigues continuar. E tudo começou quando ainda era criança.       
"Aos seis anos uma tia pôs-me um pano na mão para eu dar os primeiros pontos. O que me assustava mais era pegar na tesoura. Nós temos de cortar o pano e só depois bordar. Eu dizia-lhe para me dar só pontos de cheio, mas ela insistia que eu tinha de começar por cortar com a tesoura", recorda Cidália Rodrigues. A primeira experiência a bordar "à Tibaldinho" não foi um mar de rosas e acabou com uma pequena palmada na mão. "A minha tia disse-me que não era assim que se cortava o pano porque fiz um buraco muito grande. Fiquei aflita", acrescenta. Sobrinha e tia eram vizinhas. Ficaram muitas memórias desses tempos. 

"O encontro de todas nós nas escadas a bordarmos. Casa sim, casa sim, em Tibaldinho bordava-se nas escadas. Nós, crianças, íamos para lá e elas entretinham-nos ao pé delas", concretiza. 

Eram tempos em que do velho ou do gasto se fazia novo. "As camisas dos homens eram sempre brancas. As senhoras cortavam a parte de trás das camisas que eram feitas de linho ou de algodão bom e dali faziam um paninho. Mesmo o pano usado era aproveitado", lembra.

Hoje os tempos são diferentes e só Cidália se mantém a trabalhar a 100 por cento nos bordados. "Faço uma média de 14 a 16 horas diárias", assegura. O tempo em que se concentra a bordar é só dela. "O coração vai todo para o bordado. É feito com muito amor, por isso aparecem corações no Bordado", descreve. O futuro desta arte, diz Cidália, está assegurado. "Podem não fazer grande comercialização e as peças passarem de pais para filhos. Mas não acaba. De certeza absoluta que não acaba", diz, perentoriamente. 


Se Cidália Rodrigues tem a certeza de que esta arte não vai morrer, há algo que neste percurso já conseguiu tornar real: pôr um homem a bordar "à Tibaldinho". E não foi só um, nem dois. "Fiz umas oficinas dos bordados e consegui pôr quatro senhores a bordar. Sentaram-se fizeram um paninho com o motivo tradicional. E safaram-se muito bem. Bem, houve um que era perfeitíssimo: era neurocirurgião, portanto, já sabia... Mas aos outros também dei nota máxima porque só eles irem aprender o bordado já foi muito bom", assinala.

As conquistas que Cidália pretende não se ficam por aqui. Há um sonho por concretizar. "Eu não quero ser chata mas era muito bom haver um espaço porque esta arte merece. Quase que garanto que as peças antigas, que estão aí fechadas nas malas, eram expostas", assume.

Recentemente os Bordados de Tibaldinho estiveram a concurso nas Sete Maravilhas da Cultura Popular. Este património acabou por não seguir em frente, algo que Cidália já esperava. Sobrou o orgulho e a curiosidade. "Vieram cá pessoas que não conheciam Tibaldinho e tem havido encomendas", diz.

Este é o mais antigo dos bordados portugueses. No processo de certificação deste património chegou-se à data de 1810. Aí já estava ganho o "título". Mas houve quem apurasse que desde 1500 se bordava em Tibaldinho.
  

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