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“Quem se esquece do passado, está condenado a repeti-lo”- O que mudou passados três anos depois dos incêndios?

por Redação

27 de Junho de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

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Descuido na limpeza de matas deixa freguesia de Lageosa do Dão com um risco muito elevado para o surgimento de incêndios com grandes dimensões. Luís Morgado, chefe da secção de bombeiros de Lageosa do Dão do Corpo de Bombeiros Voluntários de Tondela, explicou ao Jornal do Centro que passados quase três anos dos incêndios de outubro de 2017, a freguesia de Lageosa do Dão, uma das mais afetadas no concelho de Tondela, pouco mudou em termos de prevenção. “No que toca a limpeza das matas acho que as coisas mudaram muito pouco. A única coisa que vi fazerem aqui na freguesia foi o alargamento das estradas, criando uma faixa de contenção, isto nas vias principais. Quanto à mentalidade das pessoas diria que agora existe muito mais medo”, explicou, acrescentando ainda que houve caminhos florestais que foram alargados, mas que, neste momento, “já não estão em condições para ser percorridos por um carro dos bombeiros”.

Kevin Santos, habitante na localidade, acredita que a única coisa que mudou foi a mentalidade das pessoas, que são agora mais cautelosas. “Porém, basta visitar as redondezas da Lageosa para perceber que as florestas estão longe de estar limpas, sendo que grande parte está completamente abandonada”. “O que me baralha é que parte das matas poderá ser da competência das próprias autoridades que deviam vigiar e multar os infratores que não cumprem com a lei. Um problema generalizado por todo o município de Tondela, acredito”, lamenta.

Questionado sobre se a localidade está agora melhor preparada para enfrentar um incêndio semelhante, Kevin Santos acredita que tudo permanece igual, situação que o entristece. “Infelizmente, as pessoas só pensam no que deveriam ter feito, quando as coisas acontecem e depois de acontecer, uns meses são o suficiente para se esquecer tudo. Se as autoridades competentes não exercem pressão, pior, as pessoas tendem a encostar-se”, refere.

“Em 2018 as pessoas estavam aterrorizadas, em 2019 estavam assustadas, em 2020 dá a sensação que as pessoas já se esqueceram e quem se esquece do passado está condenado a repeti-lo. Se nós verificarmos bem a esmagadora maioria da área do nosso concelho está ao abandono, enquanto que há uns tempos atrás existia numa zona um eucalipto hoje existem 100 ou 200”, refere Nuno Pinho, comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela, que lamenta ainda a falta de intervenção na melhoria das acessibilidades florestais, pois esta “é uma situação que podia ser completamente diferente, mas apesar de ter existido num momento inicial vontade de alterar esta situação, nomeadamente de instâncias governamentais, essa preocupação e vontade foi abandonada”.

Com uma fraca atuação na limpeza de matas, não só a freguesia de Lageosa do Dão, mas todo o concelho de Tondela, enfrenta agora um risco iminente quanto ao surgimento de incêndios de grandes dimensões. “Conforme o que vejo das matas, que já têm uma altura perigosa embora não chegue ao que era registado em 2017, diria que a probabilidade de acontecer um incêndio perigoso estaria entre os sete e os oito, numa escala de zero a dez. O mato está muito denso, com alturas entre os três e os quatro metros, fatores que contribuem para o perigo de surgir um incêndio de grandes dimensões”, referiu o chefe de secção dos bombeiros de Lageosa do Dão, Luís Morgado. Já para o comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela, Nuno Pinho, este valor pode ser um pouco mais elevado. “Neste momento, e tendo em linha de conta todas as variantes que estavam naquele dia, a probabilidade de termos um incêndio semelhante está entre os oito e os nove”, afirma.

Apesar da existência destes riscos elevados de incêndio, o comandante Nuno Pinho deixa claro que os bombeiros nunca irão baixar os braços independentemente das dificuldades que possam surgir. “O bombeiro português tem a capacidade do improviso, trabalha com a cabeça e com o coração, o bombeiro português nunca baixa os braços. Claro que numa situação idêntica à de 2017 não era possível combater aquele incendio porque havia uma série de variantes que tornavam o combate impossível, no entanto, os bombeiros estiveram lá”, remata.

 

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