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É de Tondela e está entre os 50 nomeados para o “prémio Nobel da Educação”

por Redação

17 de outubro de 2020, 08:30

Foto Igor Ferreira

Maria Cristina Simões, natural de Tondela, e professora de educação especial do primeiro ciclo, está entre os 50 nomeados para o prémio Global Teacher Prize

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Maria Cristina Simões, natural de Tondela, e professora de educação especial do primeiro ciclo, está entre os 50 nomeados para o prémio Global Teacher Prize.

A distinção é conhecida como o prémio Nobel da Educação, promovido pela Fundação Varkey, uma iniciativa presente em mais de 120 países que valoriza o papel dos professores em todo o mundo e que vai além da sala de aula.

Em 2018, Maria Cristina Simões ficou no top10 nacional. “O internacional é muito bom. Concorrem professores de todos os países. Sei que este ano houve mais de 12 mil candidaturas. Chegar aqui é muito significativo. É uma felicidade”, destaca a docente.

O projeto com que concorreu recorre a práticas inovadoras baseadas em oito domínios com impacto na qualidade de vida de alunos com deficiência. São eles: o desenvolvimento pessoal, a autodeterminação, as relações interpessoais, a inclusão social, os direitos e o bem-estar emocional, físico e material.

O projeto está a ser desenvolvido desde 2012, e nasceu no âmbito da tese de doutoramento, onde a professora validou a primeira escala que mede a qualidade de vida para adultos com deficiência. Tem sido a base para a formação em várias instituições nacionais. 

“Tem sido um trabalho extraordinário. Não é a escala em si que me move. São os resultados e aos consequências da aplicação da escala”, explica.

“Este trabalho faz ainda mais sentido que tenha continuidade na escolaridade obrigatória” e, nesse sentido, a escala tem sido aplicada, nos últimos quatro anos, no ensino a crianças e jovens dos seis aos 18 anos. 

Mas, para isso, é preciso trabalhar a educação inclusiva. “Os alunos vêm para a escola para aprenderem e progredirem dentro das mesmas condições que os seus colegas. No entanto, tem que haver um tempo, por semana, em que estes alunos sejam trabalhados para a parte mais funcional do dia a dia”, explica.

“Eles são alunos ativos, capazes de evidenciar expectativas e preferências e a escola é uma mediadora do cumprimento destes sonhos. Só assim é que a escola faz sentido”, acrescenta.

Há dois domínios da qualidade de vida que preocupam a professora. Um deles, o domínio dos direitos. 

“Estes alunos não conhecem os direitos que têm, que são exatamente iguais aos dos restantes colegas da turma. E a questão da autodeterminação. Estes alunos são, muitas vezes, infantilizados e não são ouvidos. Não são eles os agentes decisores sobre decisões importantes para a vida deles. Na maioria das vezes é a família, é a escola os professores e os técnicos que lhes dizem o que fazer, o que vestem, o que comem e para onde vão”, lamenta.

“Está na altura de olharmos para estas pessoas com a mesma dignidade com que olhamos para qualquer outro cidadão. É preciso deixá-los escolherem e decidirem que caminho querem ter para a vida deles. Aí temos um largo caminho a percorrer. Quer em Portugal, quer no mundo”, realça a docente.

“Eles têm talentos excecionais. Se olharmos para o que não fazem, não lhes damos a dignidade que merecem e não as colocamos a trabalhar onde elas são boas. Eu já senti na pele, quando sou olhada, aquilo que os pais me transmitem: ‘Eu prefiro ficar em casa do que ir ao parque com o meu filho porque é diferente’. As pessoas não fazem por mal. Temos que olhar para a nossa história social e cultural. Cabe-nos repensar ‘E se fossemos nós? Gostávamos de ser olhados?’”, questiona.

“As pessoas só se dão conta do que é a deficiência quando a vivem diretamente. A diferença é enriquecera. Não a podemos olhar como estigma”, conclui Maria Cristina Simões.

 

Como surge a educação especial

A educação especial surge desde cedo na vida da professora que está, hoje, entre os 50 nomeados para o prémio Global Teacher Prize.

“Sempre tive muito relacionada com crianças. Sou a irmã mais velha de dois irmãos. Tomei conta de primos e irmãos e isso fez-me, sempre, gostar muito de crianças. A educação especial surge por ter tido uma colega com dificuldades intelectuais. Ela tinha 14/15 anos e não era tratada da melhor forma. Usava orelhas de burro, os colegas gozavam, a professora não percebia por que é que ela não aprendia. Era uma metodologia muito à base da força física. Na altura senti logo que aquela não era a melhor metodologia. Fiquei chocada com a forma como a colega era tratada”, recorda a professora Maria Cristina Simões.

A divulgação do vencedor deste ano do Global Teacher Prize, que ganhará o prémio final de 30 mil euros, será feita no dia 3 de dezembro.

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