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Trabalhar em tempo de pandemia

por Redação

23 de Maio de 2020, 08:30

Foto Igor Ferreira

Com a evolução da pandemia Covid-19, a grande maioria dos setores de trabalho viu-se obrigada a fechar portas de forma temporária. Mas houve quem não teve tempo para ficar em casa

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Um dos setores que assumiu um papel de grande importância nos últimos tempos e que teve de continuar o trabalho foi o setor dos transportes de mercadorias. Para António Antunes, camionista há cerca de 20 anos, o facto de continuar a trabalhar enquanto muitos setores se encontram parados é algo que pode ser visto como positivo e negativo. “Por um lado, o facto de não termos parado é bom porque continuamos a receber a totalidade do ordenado. Por outro, é mau porque vemos tudo o resto fechado ou parado devido a esta situação (do vírus) e nós também gostávamos de estar em casa com as nossas famílias, em segurança”, explicou.

Já para Pereira, como assim quis ser identificado, também ele na profissão de camionista, mas há 10 anos, a sensação de ter de continuar a trabalhar foi algo que considera estranho. “Basicamente andávamos sozinhos, só se via camiões na estrada, parecia um autêntico deserto”.

Quanto às medidas de segurança que encontraram nos percursos que faziam, ambos os camionistas referiram o facto de existir controlo nas fronteiras, embora esse controlo não afetasse os motoristas de pesados de mercadorias que não eram obrigados a parar. “As autoridades perguntavam para onde ia, de onde vinha, pediam os documentos, mas isto aos carros, aos camiões não”, contou António Antunes, que acrescentou ainda que para além das fronteiras, também sentiu uma maior segurança nos locais onde tinha de carregar e descarregar. “Todos andavam de máscara e luvas, chegaram a medir-me a temperatura e, em muitos sítios, já não nos deixavam entrar nos armazéns, como era habitual. A parte má destes apertos de segurança foi que, por vezes, chegámos a ficar algumas horas à espera e não nos deixaram utilizar as casas de banho”, explicou o motorista. Já Pereira lamentou que por onde passou não sentiu qualquer tipo de mudança a nível de segurança. “Em muitos sítios temos de ser nós próprios a tomar precauções de segurança porque se não for dessa forma, não estamos seguros”, referiu.

O percurso de trabalho de António Antunes inclui países como Espanha, França, Holanda e Bélgica. O camionista confessou que no país vizinho sentiu que ele e os seus colegas de profissão foram um pouco esquecidos, isto porque as casas de banho das estações de serviço encontravam-se fechadas, algo que impedia os camionistas de terem as condições mínimas para cuidarem da sua higiene pessoal. “A parte da loja estava aberta, pedíamos o que queríamos e os funcionários iam buscar, mas as casas de banho estavam sempre fechadas, desta forma não tínhamos acesso a coisas simples como poder tomar um duche”, desabafou.

“O problema é que só se lembraram dos motoristas agora porque precisavam dos bens essenciais, porque no resto do ano, em tempos normais, ninguém se lembra de nós. Agora os motoristas já são vistos como “heróis sem capas”, mas isso é porque as pessoas estavam com medo que nós parássemos, o que levaria à falta de produtos essenciais. Em tempos normais os motoristas passam, por vezes, por situações desagradáveis como, por exemplo, em algumas estações de serviço em que paramos para tomar banho e somos recebidos com duas pedras na mão. Infelizmente, os motoristas só são respeitados quando são precisos”, atirou, por seu lado, Pereira.

Como os motoristas de pesados de mercadorias, também muitas fábricas mantiveram as portas abertas. Algumas optaram por alterar a forma de trabalhar, fosse através da redução do horário de trabalho ou pela rotação de trabalhadores. Maria Loureiro, operária fabril, confessou ao Jornal do Centro que trabalhar em tempo de pandemia não tem sido lá muito bom, não só devido ao medo de infetar familiares, mas também porque sentia que os seus colegas de trabalho não conseguiam respeitar o distanciamento de segurança. “Trabalhar nestes tempos é horrível, porque eu tenho duas crianças em casa, uma delas inserida num grupo de risco, e o facto de existir demasiada informação a circular faz com que a nossa cabeça esteja sempre a pensar no assunto, embora saiba que muita dessa informação que circula seja falsa. Para tornar a situação ainda mais difícil, no meu local de trabalho, de início, a única coisa que foi dada para proteção foi álcool gel e, apesar das recomendações de segurança relativamente à distância entre pessoas, a verdade é que praticamente ninguém respeitava isso. Tive qu, por várias vezes, pedir a colegas para se afastarem e para ser respeitada essa distância de segurança”, confessou a operária.

A trabalhadora referiu ainda que o facto da empresa onde trabalha não ter imposto a obrigatoriedade do uso de materiais de proteçãom, como a máscara e a viseira, levou a que muitos dos seus colegas realizassem o trabalho sem este tipo de proteção. “Só em meados de abril a empresa forneceu viseiras, mas não tornou a sua utilização obrigatória, muitas pessoas trabalhavam sem qualquer tipo de proteção e limitavam-se apenas a desinfetar as mãos”, contou.

Também sempre em trabalho está Mariana Mendes. Como operadora de supermercado, a trabalhadora afirmou que se sente bem em poder ajudar, mas realça que mesmo quem foi obrigado a ficar em casa tem um papel importante nesta luta. “Calhou-me estar numa das “linhas da frente”, e é bom poder ajudar as pessoas a terem acesso aos bens essenciais. Mas todos nós temos um papel importante nisto, desde quem está na linha da frente a quem foi obrigado a ficar em casa”, referiu.

Para a funcionáeria, a maior dificuldade em trabalhar em tempo de pandemia “é o facto de poder apanhar o vírus e passar à minha família que se encontra toda em casa”. A operadora de supermercado falou ainda sobre o uso da máscara, frisando que apesar de ser desconfortável e causar algumas dificuldades, nomeadamente a nível da comunicação, é algo necessário. “Não é fácil andar com isto oito horas. Eu tenho que falar com muitas pessoas ao longo do dia e torna-se desconfortável porque nem sempre me percebem bem ou se quer me ouvem para além de que fica muito “quente”. É desconfortável, mas é para o bem de todos nós”, explicou.

Comum a todos estes trabalhadores está o receio não de serem infetados, mas o de poderem transmitir o vírus às suas famílias.

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