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Viseu protestou há 15 anos. Este domingo volta a vestir-se de arco-íris

por Redação

10 de outubro de 2020, 08:30

Foto Tiago Resende

CLIPS ÁUDIO

Há quem recorde os olhares de lado, outros lembram os slogans gritados. As memórias daquele 15 de maio de 2005 não saem do pensamento de quem decidiu colocar-se ao lado de pessoas agredidas pela sua orientação sexual. Há 15 anos estiveram trezentas pessoas junto à Câmara Municipal de Viseu. Este domingo, alguns deles voltarão às ruas para marchar pela igualdade e pelo respeito

Em jornalismo quase sempre se começam os artigos pelo presente. Neste caso é preciso recuar 15 anos. Em 2005, alguns homossexuais apresentaram queixa por terem sido vítimas de injúrias, ameaças e danos nos seus veículos. Sete pessoas foram consideradas suspeitas da prática desses crimes. Houve, depois, uma mobilização que fez chegar a Viseu 14 associações de defesa da comunidade gay. Rezam as crónicas que, naquela tarde, três centenas de pessoas se juntaram no Rossio de Viseu.

Em 2018 e 2019 várias associações se juntaram na luta pelo respeito em relação aos cidadãos LGBTI+. Este domingo, dia 11, acontece mais um evento pela igualdade. Daquele dia de maio de 2005 Manuela Antunes, ativista, lembra sobretudo os olhares. “Percebi que pessoas que me conhecem desde criança me olhavam de lado e algumas comentavam quando me viram passar “Olha aquela que também está ali com aqueles”... Algumas coisas já nem me recordo, mas aqueles olhares... Foi terrível. Claro que, para mim, ainda me deu mais força no sentido de estar lá, com a cara bem levantada e dizer “estou aqui e estarei em tudo o que são lutas de direitos humanos”, refere Manuela Antunes.

Para a ativista, estas questões não têm cores políticas, ou pelo menos não deveriam ter. “Ainda há muitas pessoas que vêm estas questões como causas de esquerda. E eu questiono: então os direitos humanos são causas de esquerda ou das pessoas? No ano passado levei à Assembleia de Freguesia de Viseu uma saudação pela marcha gay que foi chumbada pela dita direita com um argumento que é fantástico: em Viseu não se justifica fazer uma marcha porque é uma cidade espetacular onde corre tudo bem. Como é que é possível? Quando nós sabemos que na primeira marcha houve cartazes vandalizados que mostravam homofobia”, descreve Manuela Antunes.

No entender de algumas pessoas esta também é uma manifestação política. Presente há 15 anos no protesto a favor da igualdade de direitos, Graça Marques Pinto recorda que aquela foi a primeira manifestação do género que nunca tinha acontecido até esse dia fora de Lisboa. “Senti uma grande emoção porque vieram pessoas de vários pontos do país que se juntaram a nós e também porque uma pessoa se assumiu enquanto homosexual através de uma intervenção”, recorda. O município de Viseu não tem apoiado institucionalmente estas manifestações, Graça Marques Pinto discorda. “Faria todo o sentido. Aliás lamentamos. É pena. Acima de tudo é uma questão de direitos humanos”, assinala.

Para a defesa desses mesmos direitos surgiu o núcleo de Viseu da Olho Vivo. O presidente da associação, Carlos Vieira, acredita que 15 de maio de 2005 vai ficar na história da luta contra a homofobia. Quanto à marcha deste domingo, o ativista confia que vá ser um grito pela igualdade. “Vai ser contra os preconceitos de género, com base na orientação sexual. Há uma palavra de ordem que demonstra bem isto: “Eu amo quem quiser, seja homem ou mulher. Acho que toda a gente tem o direito de amar. Não entendo como ainda há pessoas a quem isto faz confusão”, refere Carlos Vieira.

Mariana Carneiro lembra bem algumas frases gritadas pelos presentes na manifestação de 2015. “Recordo-me que gritámos 'STOP homofobia' ou 'Homofobia não passará'. Era essencialmente um entusiasmo pela mobilização. Lembro-me de ver o brilho nos olhos como sinal de que foi possível organizar esta iniciativa em Viseu. A cidade saiu de casa, abriu a janela e veio para a rua lutar pelos direitos LGBTI+”, recorda. Também Carla Mendes se juntou há luta há 15 anos. Hoje, diz, faz sentido continuar a sair de casa a reivindicar igualdade. “Muitas vezes em questões feministas pergunta-se se ainda vale a pena estar a falar da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Pode haver na lei, mas na prática, a nível salarial, o machismo, o sexismo... A educação para a Cidadania pode começar, desde cedo, nas escolas, a combater estes preconceitos”, defende. A mesma opinião tem Rui Sá que também esteve no Rossio em 2005. “Há, sobretudo muita heteronormativa em todos os circuitos aos quais as pessoas têm de recorrer, sofrendo, diariamente, na pele essa opressão. É importante haver visibilidade para se mudarem mentalidades e a marcha traz, também, esse questionar de privilégios. Até para que se perceba que não vivemos num mundo a preto e branco: há uma tonalidade de cores”, acrescenta.

José Soeiro é hoje deputado pelo Bloco de Esquerda. A marcha em Viseu, apesar de não ter uma conotação partidária, nestes momentos alguns movimentos políticos fazem-se notar. Há 15 anos, o agora deputado, esteve em Viseu e sobretudo lembra um sentimento de defesa do que era justo. “Estivemos lá com muito orgulho e, claro, com sentido de indignação. Estávamos, simplesmente, a defender a liberdade e o respeito”, assinala. 15 anos depois, defende, que ainda há muito por mudar. “Há preconceito. Continuamos a ter desigualdades no acesso ao emprego e à habitação. Continuamos a ter violência homofóbica e transfóbica que tem sido alimentada pelos discursos de ódio em todo o mundo. É preciso, mais do que nunca, reafirmar que as minorias, por o serem, não têm direitos menores”, argumenta.

Exposição fecha a marcha

A marcha deste domingo começa no Parque Florestal do Fontelo, percorre algumas das ruas do centro da cidade de Viseu e só termina na praça do Rossio. Ali estará patente uma exposição que evoca a manifestação de há 15 anos. Tiago Resende, o organizador da mostra fotográfica que reuniu imagens daquele dia. “Eu fiquei fascinado. Sou um grande adepto de fotografia e de história. Eu nunca tinha visto nenhuma imagem daquele acontecimento que se tratou de uma manifestação marcada em cima do joelho. Ver aquelas imagens é emocionante. Estamos a falar de uma cidade muito mais conservadora do que é hoje”, refere. A marcha sai de novo à rua, dizem, para mostrar que o respeito se veste de arco-íris.

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