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Covid-19: dirigentes de instituição de Farminhão, em Viseu, "furam" regras da vacinação

por Redação

01 de fevereiro de 2021, 12:35

Foto Igor Ferreira

Direção está “tranquila”. Ordem dos Enfermeiros apela a profissionais que não vacinem quem não é prioritário

CLIPS ÁUDIO

Vários dirigentes da Associação de Solidariedade Social de Farminhão, no concelho de Viseu, foram vacinados contra a Covid-19, furando as regras da vacinação, que dizem que apenas os funcionários e utentes dos lares podem receber a imunização.  A situação chegou ao conhecimento do Jornal do Centro através de uma carta anónima. O presidente da Direção da instituição diz que a denúncia tem apenas “alguma verdade”.

"No dia 18 de janeiro, além os colaboradores e utentes da UCC, foram também vacinados o presidente da Assembleia Geral, o presidente da Direção, a vice-presidente, que é filha do presidente da Direção, a vogal (esposa do presidente da Direção), o tesoureiro, o vogal e, ainda, a diretora executiva", pode ler-se na carta que chegou à redação e que também foi publicada pela Ordem dos Enfermeiros.

Além de "todas estas pessoas da direção", a carta anónima revela que “foram também vacinadas duas funcionárias da secretaria que exercem as suas funções no edifício do lar e não na Unidade de Cuidados Intensivos" - a esposa do tesoureiro e uma mulher que, "no dia da vacinação, se encontrava de baixa há mais de um mês e veio só para receber a vacina, continuando de baixa".

Na carta, pode ler-se ainda que “é lamentável esta atitude por parte destes dirigentes que gerem uma instituição” e que “na primeira oportunidade a usam para benefício próprio pensando neles e nas suas famílias”.

 

Direção da instituição está “tranquila”

Contactado pelo Jornal do Centro, o presidente da Direção da instituição diz que a denúncia tem apenas “alguma verdade”.

“De acordo com o comunicado que recebemos da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), a prioridade de vacinação é esta: utentes, colaboradores, pessoas que estão em contacto direto com utentes ou trabalhadores da instituição, dirigentes ativos e foi o que nós fizemos”, começa por explicar-se Duarte Coelho.

Isto porque, esclarece, quando a instituição se viu em mãos com um surto no final do ano passado ficou com falta de pessoal e as brigadas rápidas de intervenção da segurança Social não estavam disponíveis. "Nessa altura a minha filha veio ajudar, andou a fazer camas e tudo o que era preciso e a minha mulher, que não faz parte da direção, ficou responsável pela cozinha", conta.

“Proporcionamos a vacina, também aos mais ativos da instituição, outros não tanto, mas foram aproveitadas as sobras”, acrescenta. 

O dirigente diz, ainda, que não se sente “culpado de nada” e que está de “consciência tranquila”. “O que foi feito, fazia agora, na mesma”, admite. 

 

 

Questionado sobre se essas sobras das doses da vacina não podiam ter sido administradas às “cinco funcionárias do lar que durante o surto trabalharam em turnos de 12 horas”, o presidente da Associação explica que “não foi dada autorização por parte das autoridades de saúde”, que alegaram que “havia um surto no lar”, mas garantiu que essa autorização foi pedida pela enfermeira coordenadora.  

 

Ordem dos Enfermeiros apela a profissionais que não vacinem quem não é prioritário e que denunciem situação

A denúncia também já chegou à Secção Regional do Centro (SRC) da Ordem dos Enfermeiros que “lamenta e condena veementemente a situação relatada (e outras que possam vir a ser conhecidas)”.

O presidente da SRC da Ordem dos Enfermeiros apela “a todos os enfermeiros que estão nas brigadas de vacinação” que não sejam “coniventes” com a situação.

“Sempre que existir uma clara violação dos grupos prioritários, os enfermeiros não devem vacinar essas pessoas e devem, imediatamente, reportar a situação ao seu superior hierárquico, Ordem dos Enfermeiros, Direção-Geral da Saúde e Ministério da Saúde”, apela Ricardo Correia de Matos.

O Jornal do Centro já contactou a Segurança Social, estando a aguardar esclarecimentos.

 

Há mais casos no distrito de utilização indevida da vacina contra a Covid-19

Este caso, em Farminhão, vem juntar-se a outros de alegada utilização indevida das vacinas contra a Covid-19.

Na Santa Casa da Misericórdia de Nossa Senhora dos Milagres, em Oliveira de Frades, alguns dirigentes foram vacinados contra a Covid-19. A vacinação foi feita juntamente com os utentes e funcionários dos lares e da Unidade de Cuidados Continuados da instituição. 

A situação foi confirmada pelo próprio provedor. António Cabrita Grade diz que, à semelhança do que aconteceu em outras instituições sociais, os elementos da mesa administrativa considerados essenciais para a gestão receberam a vacina contra o novo coronavírus.

Também em Resende, há a denúncia de que a Santa Casa da Misericórdia local vacinou o seu provedor "que tem 44 anos de idade" e o presidente da Assembleia Geral, que é padre. "Mas nenhum deles faz parte do grupo prioritário", é denunciado.

"Os funcionários da manutenção também não foram vacinados, apesar de andarem pela instituição e lidarem com toda a gente, assim como os fisioterapeutas da clínica foram excluídos, apesar de lidarem todos os dias com dezenas de utentes, alguns deles positivos à Covid-19", pode ler-se na denúncia.

Já em Castro Daire, há suspeitas de que o provedor da Santa Casa da Misericórdia e três membros da direção, incluindo o presidente da Junta de Castro Daire, levaram a vacina contra a Covid-19, "enquanto parte dos utentes e funcionários da linha da frente dos três lares e Unidade de Cuidados Continuados ainda não tinha levado".

"Nem provedor, nem membros da direção, nem esposa do provedor, nem secretaria, poderiam ter levado a vacina, pois não são grupo de risco nem trabalham diretamente com os idosos", pode ler-se num e-mail enviado à redação do Jornal do Centro.  Fonte da instituição garante que todos os utentes e funcionários, que estavam no grupo prioritário, foram vacinados. 

Ainda durante este fim de semana, o Ministério da Saúde considerou “inaceitável” qualquer utilização indevida de vacinas contra a Covid-19, alertando que este ato pode ser "criminalmente punível”, e pediu à task-force que prepare uma lista de outras pessoas prioritárias.

 

O bom exemplo em Armamar

Seis operacionais dos Bombeiros Voluntários de Armamar já foram vacinados contra a Covid-19. Os operacionais receberam as vacinas que sobraram da campanha de vacinação decorrida nos lares do concelho, depois de contactados pelo Centro de Saúde local.

O comandante dos Bombeiros, Nuno Fonseca, refere que a grande parte dos vacinados pertence à equipa de emergência da corporação. O responsável acrescenta que a instituição não podia deixar passar ao lado esta oportunidade.

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