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Covid-19: o "caos" em que se tornou o plano de vacinação

por Redação

03 de fevereiro de 2021, 17:31

Foto D.R.

Lino Maia diz que este processo deve ser “transparente” e continua a defender a vacinação de “dirigentes ativos”

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O presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) defende que “os casos de abusos” na má utilização da vacina contra a Covid-19 “devem ser condenados”.

Lino Maia diz que este processo deve ser “transparente” e continua a defender a vacinação de “dirigentes ativos”.

“Se há algum abuso, eu condeno absolutamente. Mas, tanto quanto me vai chegando, os abusos não têm acontecido nestas instituições. O processo tem de ser transparente e eu penso que está a correr bem”, começa por dizer.

Sobre a expressão “dirigentes ativos”, o responsável da CNIS garante que nas instituições todos os dirigentes são ativos, mas que “há sempre um grupo de três ou quatro elementos que estão horas e horas na instituição, para que funcione, em contacto com todos”. “Esses é que devem ser vacinados”, acrescenta Lino Maia. 

Questionado sobre a lista que algumas instituições dizem ter recebido por parte da CNIS, em que estariam incluídos os dirigentes no plano de vacinação, o presidente garante que essa lista não é da CNIS, mas que é “uma orientação dos Agrupamentos de Centros de Saúde (ACES)”.

“Os ACES contactam, primeiro, com as instituições pedindo números e depois a identificação das pessoas a vacinar. Reparei que, em alguns casos, os ACES colocavam para vacinar utentes, trabalhadores e direção. Mas essa lista não é da autoria da CNIS”, garante. 

“Nas tais listas mandadas pelos ACES, eu percebo que há orientação para que esses dirigentes ativos possam e devam ser vacinados”, conclui Lino Maia. 

 

Ordem dos Médicos fala em “caos” e disponibiliza ajuda à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde 

A Ordem dos Médicos do Centro defende que o plano de vacinação em Portugal corre mal "desde o primeiro dia". O presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos fala num verdadeiro “caos”.

“Este deveria ser um momento de felicidade e de esperança no combate à pandemia da Covid-19, mas tornou-se um verdadeiro caos. O plano de vacinação, como está mais do que provado, é irregular na sua aplicação, o que até já levou à demissão do Dr. Francisco Ramos, da Task Force. O que prova que as coisas não estão a correr bem desde o primeiro dia da vacinação em Portugal”, aponta Carlos Cortes.

Por causa do verdadeiro “caos” a que se tem assistido nos últimos dias, no que diz respeito à utilização indevida de vacinas contra a Covid-19, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) iniciou uma inspeção. A Ordem dos Médicos já disponibilizou ajuda técnica ao gabinete.

“Ao abrigo de um protocolo celebrado entre a Ordem dos Médicos e a IGAS, e sabendo da pouca capacidade técnica para avaliar estas situações, disponibilizámos essa colaboração técnica, como já o tínhamos feito aos hospitais e à Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro”, revela. 

 

Dirigentes de instituições falam em “chico-espertismo” e “má imagem”

O presidente do Lar São Cosmado, em Armamar, sobre a utilização indevida das vacinas contra a Covid-19, diz que “cada caso é um caso”. 

“Em algumas situações, possivelmente, ocorreram os ditos abusos indevidos. Noutros casos, não houve esse desvio. Tratou-se, sim, de evitar que a vacina fosse desperdiçada”, sublinha.

Américo Moreira realça que, agora, já há uma lista para o caso de sobrarem doses de vacina, mas lamenta que esta situação possa “manchar” a imagem das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS’s).

“Está a haver um aproveitamento que prejudica a imagem das IPSS’s que na sua grande maioria têm à sua frente pessoas sérias e que fazem um serviço meritório e que deve ser reconhecido por toda a gente”, sustenta. 

“De um momento para o outro, não sei se é ou não do confinamento, entraram todos em paranóia e há toda a gente a dizer mal e por causa de uma árvore está a tentar destruir-se a floresta”, lamenta o presidente do Lar São Cosmado, em Armamar. 

Já o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Viseu revela que “por um mero acaso” a instituição não se vê envolvida na polémica.

“Numa das situações, uma diretora ligou-nos a dizer que havia duas ou três tomas [da vacina] que iam para o lixo e perguntou-nos se algum dos elementos da direção estaria disponível para a tomar. O tempo começou a esgotar-se e a diretora informou-nos que deram as sobras num outro lar que ainda não tinha sido vacinado por ter um surto ativo de Covid-19”, explica Adelino Costa.

O dirigente da Santa Casa de Viseu parece não ter dúvidas de que houve um “exagero” em determinadas situações, tudo por “chico-espertismo”.

“É evidente que ninguém pode aceitar. Houve claramente exageros, por chico-espertismo, de situações em que foram vacinados todos os órgãos sociais, alguns deles vão duas ou três vezes por ano à instituição. Não cai bem. Outras situações é a de pessoas que andam com permanência nas valências, junto dos idosos, e em situações destas, de não estragar [as doses sobrantes], não vejo que tenha havido mal. Ninguém tinha as tais listas supletivas para no caso de sobrarem doses da vacina, serem aproveitadas”, afirma o provedor. 

 

Coordenador da Task Force para a vacinação contra a Covid-19 demite-se

Francisco Ventura Ramos renunciou ao cargo de coordenador da Task Force para a Elaboração do Plano de Vacinação contra a Covid-19 em Portugal esta quarta-feira (3 de fevereiro).

Em comunicado, o Ministério esclareceu que a demissão de Francisco Ramos decorre de “irregularidades detetadas pelo próprio no processo de seleção de profissionais de saúde no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, do qual é presidente da comissão executiva”.

Numa declaração enviada às redações, Francisco Ramos acrescentou que as irregularidades diziam respeito ao processo de seleção para vacinação de profissionais de saúde daquele hospital.

“Ao tomar conhecimento de irregularidades no processo de seleção para vacinação de profissionais de saúde do Hospital da Cruz Vermelha, do qual sou Presidente da Comissão Executiva, considero que não se reúnem as condições para me manter no cargo de coordenador da Task Force para a elaboração do Plano de Vacinação Contra a COVID-19 em Portugal. Assim, apresentei ontem, dia 2 de fevereiro de 2021, à Senhora Ministra da Saúde, a renúncia ao cargo”, escreveu na declaração.

O Ministério da Saúde indicou que o funcionamento da Task Force “mantém-se assegurado pelos restantes membros do núcleo de coordenação”.

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