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Viseu: petição exige revogação da decisão de cobertura do Mercado 2 de Maio

por Redação

16 de fevereiro de 2021, 16:49

Foto Arquivo Jornal do Centro

CLIPS ÁUDIO

Arquitetos, historiadores e gestores culturais assinaram uma carta aberta onde apelam à Câmara de Viseu para não avançar com o projeto previsto de cobertura e requalificação para o Mercado 2 de Maio, uma praça que já tinha sido requalificada por Álvaro Siza Vieira nos anos 90 do século passado e que está no centro histórico da cidade.

O movimento nacional constituído por Eduardo Souto de Moura, José Mateus, Francisco Keil Amaral, Vítor Serrão, Simonetta Luz Afonso, Dalila Rodrigues e Odete Paiva, entre outras figuras, considera que o projeto de cobertura do Mercado 2 de Maio é “um desrespeito despudorado pelo trabalho autoral e pelo património da cidade” de Viseu e que “constitui um grave e inadmissível atentado patrimonial e urbanístico”.

As obras estavam previstas para arrancar em janeiro deste ano, mas ainda não começaram. De acordo com os planos da Câmara, o espaço irá sofrer alterações orçadas na ordem dos 4,3 milhões de euros e que preveem a cobertura com painéis fotovoltaicos e a requalificação do Mercado, num investimento que vai custar aos cofres da autarquia 600 mil euros.

Intervenções que voltam a ser contestadas, tal como já aconteceu no passado, altura em que o executivo camarário anunciou a abertura de um concurso de ideias.

Entre os motivos apresentados, os signatários defendem que “imperativos de revitalização do centro da cidade de Viseu, como de qualquer cidade com significativa trajetória histórica, não podem afetar de modo lesivo existências arquitetónicas e componentes patrimoniais”.

“Sucede que o projeto de cobertura da Praça 2 de Maio, que o Município de Viseu anunciou vir a executar – em virtude do seu desacerto e da sua profunda dissonância com o lugar e com a envolvente­ –, constitui um grave e inadmissível atentado patrimonial e urbanístico”, acusam os peticionários.

Os 41 subscritores da carta aberta, dos quais 21 arquitetos, consideram que, “num desrespeito despudorado pelo trabalho autoral e pelo património da cidade, o atual executivo camarário ignorou os arquitetos Álvaro Siza Vieira e António Madureira, autores do projeto executado nos anos 90 do século XX”.

Estes autores lembram que o anterior executivo camarário, liderado por Fernando Ruas, tinha solicitado a Siza Vieira “alterações pontuais ao projeto executado, designadamente uma solução para a cobertura” do espaço.

“Tendo obtido resposta, a Câmara Municipal de Viseu não a executou. Nesta consideração, impõe-se a questão: onde está, atualmente, o projeto de alteração/cobertura da Praça 2 de Maio, desenhado a posteriori pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira? Exigimos o direito à sua divulgação pública e à sua discussão alargada”, exigem.

Estes subscritores lembram ainda que “o programa do concurso para a revitalização da Praça 2 de Maio lançado, em 2015, pela Câmara Municipal de Viseu, por ser incompreensivelmente impositivo e determinar, a priori, a solução a adotar, eliminou quaisquer possibilidades de intervenção e revitalização distintas, adequadas e qualificadas”.

Neste sentido, dizem que “após o concurso, foram apresentadas publicamente as três propostas vencedoras. Porém, desconhecendo-se resultados de qualquer debate ou consulta pública, o Município decidiu avançar com a proposta classificada em 2.º lugar”.

“Por fim, consideramos ser um dever de cidadania denunciar – e não admitir – que mais de quatro milhões de euros do erário público sejam gastos numa obra profundamente atentatória do património da cidade”, concluem.

Nomes como o jornalista Pedro Santos Guerreiro, o arquiteto João Luís Carrilho da Graça, a historiadora Maria de Lurdes Craveiro e Cristina Azevedo Gomes, professora no Instituto Politécnico de Viseu, também já assinaram a carta, entre outros.

O Mercado 2 de Maio é assim chamado porque foi a data em que, em 1834, as tropas liberais entraram na cidade de Viseu. O espaço foi inaugurado em 1879.

Antes dos anos 1990, era o local do mercado na cidade, com vendedores das aldeias, talhos e peixaria. Foi depois desativado e recuperado pela mão do arquiteto Siza Vieira. Desde essa altura, o espaço tem sido alvo de várias discussões e contestações quer sobre a sua utilização, quer sobre a forma como foi requalificado.

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