01 Jun
Viseu

Jorge Adolfo

OPINIÃO

Capitéis de um canteiro ignoto

Em pé, quase afrontadas, as duas aves encontram-se com os pescoços entrelaçados, num movimento eternamente gracioso

22 de Maio de 2020, 15:00

CLIPS ÁUDIO

Em pé, quase afrontadas, as duas aves encontram-se com os pescoços entrelaçados, num movimento eternamente gracioso.  

Amputado e corroído por doença, o pequeno capitel da igreja de Santo André de Ferreira de Aves perdeu o brilho de outrora. A aura, essa, permanece com ele, desde o momento em que o bloco de granito ganhou forma nas mãos do canteiro medieval que o cinzelou.

Talvez tenha integrado o portal principal, também designado da Glória, desmantelado em finais de quinhentos ou já no período barroco, quando se procedeu à ampliação do templo porque era “muito pequeno para tao grande povo”, afirmava-se no Livro de Visitas a Ferreira d’Aves, em 1571.  

O capitel com as duas aves, colocado no topo de um dos colunelos, sob um ábaco certamente decorado com motivos fitomórficos ou geométricos, em tudo semelhante à composição arquitetónica do portal lateral, constituía uma espécie de brasão da vila que todos os vizinhos sabiam ler: as Aves de Ferreira. Mesmo os analfabetos, que eram quase todos nesses tempos.

Das mãos do mesmo canteiro terão saído os quatro capitéis que se encontram sobre colunelos, no portal lateral que agora observo. Cada um, singular nos motivos esculpidos. Cada um, uma lição. No primeiro, da esquerda, dois bestiães afrontados, lembrando os seres, meio humanos meio animais, presentes em iluminuras de códices medievais; no segundo, as clássicas folhas de acanto, símbolo de beleza e sofrimento; no terceiro, folhas de acanto sobre as quais emerge uma poderosa cabeça de águia, entre dois cordões em espiral, segurando uma serpente com o bico; no quarto, da direita, entre motivos fitomórficos, novamente uma cabeça de ave – talvez águia – também com uma serpente no bico. O Mal não passará por aquela porta, não entrará no Paraíso que é a igreja porque Cristo, simbolizado na águia, está vigilante e aniquilará a serpente. Como vigilante está o cão feroz representado no tímpano. Receai, portanto, mas com esperança.  

Incrustada no corpo cicatrizado da igreja de Santo André de Ferreira de Aves, a memória românica deixada pelo canteiro ignoto espera por um outro olhar.

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