21 jan
Viseu

Pedro Coutinho

OPINIÃO

Este país

09 de janeiro de 2021, 08:00

CLIPS ÁUDIO

Estou sentado no banco do jardim. Por ali, alguém repara na máscara usada atirada ao chão. O comentário é o do costume: “só neste país”. Atendo o telefone e o meu amigo sem habilitações académicas vocifera que não consegue emprego no privado “por causa deste governo”. Vejo as notícias na televisão: a pandemia em Portugal é grave, mas as medidas produzem resultados. O comentário nas redes sociais foca-se imediatamente no que corre mal; tudo está mal… A culpa é do todo, a culpa é deste país, deste governo, deste patrão, a culpa, a culpa sem soluções. Uma culpa que se transforma em buzinas no trânsito, em raiva e em tristeza, uma culpa infeliz e chorosa. 

Este é um traço marcado da comunicação portuguesa entre pares: a sinédoque do copo quase vazio. A máscara no chão não é um país. Um cidadão sem educação não são 11 milhões de pessoas. Um país é uma entidade política com inevitáveis traços culturais. Não é uma família. Não é um traço identitário recebido à nascença. Para se ser português não é preciso genética, mas um cartão de plástico. Os discursos da nacionalidade ocultam e abafam a luz do esclarecimento. Não assumo que todos os portugueses têm esta característica. Assumo que este discurso do todo pela parte é integrante da nossa estrutura linguística. Não se trata de um problema político, mas linguístico. Trata-se do abuso paternalista dos pronomes demonstrativos, como se estivéssemos sempre a descrever algo à distância, como se fôssemos sempre dotados de uma infalível capacidade de análise descomprometida graças ao afastamento do que é descrito. A forma como se enuncia “este país” remete para o desprezo da raposa que não chega às uvas. Traduz uma não apropriação efetiva do conceito. Podia ser “meu país”, “nosso país”, “nosso governo”. Tal como se ouve, soa sempre ao membro ausente da família que se refere à esposa com um “esta”. “Esta” que não me pertence, “esta” que eu não entendo. Esta coisa de que falamos sempre longe de nós.

Proponho uma resolução de ano novo: mais do que alterações comportamentais, alimentares, económicas, faça-se uma alteração linguística! Introduza-se e abuse-se do pronome possessivo no dia-a-dia. O meu/nosso país, o meu/nosso governo, o meu/nosso desemprego, o meu/nosso concidadão que não entende onde é o lixo, o meu/nosso planeta. Esta será seguramente a receita para a melhoria da vida de todos, alterando a perspetiva, permitindo-nos mudar o que realmente podemos na nossa vida política diária. Desse modo, perceberemos melhor a nossa responsabilidade e a nossa eliminação de culpas para acabar com o nosso medo que nos torna mais cinzentos e infelizes.

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