28 fev
Viseu

David Duarte

OPINIÃO

Fragmentos de um Diário

16 de janeiro de 2021, 08:00

CLIPS ÁUDIO

1 de Janeiro de 1975

 

 Um novo ano que se abre, um ano que espero, sob o ponto de vista familiar, melhor que o anterior. Que a vida do meu lar se reorganize de maneira mais razoável e que a democracia seja um sinal de esperança.

Na quinta-feira passada, a convite dos meus padrinhos, fomos a Viseu. Há uns 11 anos que não visitava esta cidade. Em Agosto, com o meu pai, apenas de passagem ali estive. Regressávamos do Porto: mal saímos da estação de comboios, almoçámos numa lateral da rua Capitão Homem Ribeiro e adiantámos uns vinte passos na avenida António José de Almeida.

A casa dos meus padrinhos, alugada com mobília, situa-se na Calçada de Viriato, num rés-do-chão, com um pátio sobranceiro ao largo da Feira e com uma vista até ao monte de Santa Luzia.

 

5 de Janeiro de 1975

 

Noutro dia, de Santa Ovaia, bem almoçado, fui a Lobão. Encontrei-a. E conversámos, eu sentado na bicicleta, e ela, de pé, nos degraus do cruzeiro no adro. Foi uma conversa amena, eu estava de partida para Lisboa. 

 No sábado, um táxi levou-nos, a mim e a minha mãe, de Lobão a Tondela. E às três, num autocarro, vindo de Viseu, regressámos a Lisboa.

E aqui me encontro. Vivo com a minha mãe no antigo apartamento dos meus tios, com duas camas, uma geleira rabugenta, um fogão, e alguns livros. Esperamos que em breve se inicie o descarregamento das nossas mobílias vindas de África. O nosso carro, um Simca 1000, pintado de branco, e estofado de negro, encontra-se já estacionado em frente do prédio.

Estou ansioso pelo dia de amanhã. Há tanto que não vejo a Fátima! Como a desejo ver, estar com ela, confessar-lhe as minhas fraquezas. Porque não compreendo os demónios que me habitam. Como, amando-a, sou tão vulnerável à beleza de outras mulheres é algo que só a psicologia pode explicar. Devem existir vários eus dentro de nós, contraditórios, mesmo antagónicos, irreconciliáveis. Porque se fosse superficial o meu sentimento pela Fátima, o meu comportamento em Lobão seria inteligível, perdoável. Mas eu amo-a. E, no entanto, não resisto aos impulsos do corpo, atraído pela geometria do corpo feminino.

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