09 mar
Viseu

David Duarte

OPINIÃO

Fragmentos de um Diário

20 de fevereiro de 2021, 08:00

CLIPS ÁUDIO

7 de Fevereiro de 1975

Foram noites que para sempre permanecerão na minha memória. Pela primeira vez as passei ao lado de uma mulher. Apesar dos dezanove anos, ela é uma mulher. Trabalhadora, responsável, sustentáculo, em parte, de uma  família, e encarregada de educação de um irmão mais novo. É bonita, atraente, mas discreta para evitar excessivas atenções. Foi aos poucos que a fui descobrindo, e também devagar que ela se deixou revelar, durante as primeiras semanas que comecei a frequentar o trabalho da minha tia. Lembro-me das vezes que vinha fumar um cigarro às escondidas nas traseiras do edifício, mesmo em frente ao Panteão, e ela também vir, ao ponto de quase por intuição acabarmos por sincronizar as nossas escapadelas para fumar.

Ela trazia umas sandes e sumos para o jantar. Mas a nossa fome era de amor, e de desejo a nossa sede. Instalávamo-nos na cama, a comida numa bandeja em cima de uma cadeira, a roupa espalhada pelo chão, enquanto a luminosidade da televisão, sem som, partilhava o ambiente com as sombras da noite. Do candeeiro público chegava-nos ainda uma mancha amarelada que se quebrava no parapeito da janela. Ela era a primeira a despir-se, os seios quase escondidos pela negrura dos cabelos. Eu gaguejava nos gestos, mas por malícia começava por ajoelhar-me num tapete ao lado da cama numa atitude de gratidão quase religiosa por esta dádiva da vida e da natureza. E beijava-lhe devagar o corpo inteiro como numa peregrinação de recolhimento e de graças. Ela recebia com serenidade e um sorriso as manifestações desajeitadas da minha adolescência. 

Foram noites de festa, dos sentidos, da alma e de poesia. Poesia que ela me pedia que eu recitasse a meio da noite, às escuras, apenas com a nódoa amarelada da luz pública ao fundo da cama. Outras noites, sintonizávamos a rádio para música que nos agradasse. Ambos gostávamos de fado. Se acontecia a sorte de passarem este tipo de música, não sei que emoções perturbavam a minha namorada, mas sei que algo a transfigurava e que o nosso desejo se desvelava numa entrega mais profunda, num encontro em que a nossa dualidade se anulava para sermos um só.

Uma vez também saímos. Apeteceu-nos andar pelas ruas, sem destino, de mãos dadas, e o frio e o vento por companhia. Demorámos uns instantes no miradouro da Graça a olhar o casario que se estendia colina abaixo. Ao fim de quase duas horas regressámos a casa, já ansiosos da intimidade e do calor do nosso quarto. Eram tão simples os nossos desejos!

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