28 Set
Viseu

David Duarte

OPINIÃO

Fragmentos de um Diário

12 de Setembro de 2020, 07:00

CLIPS ÁUDIO

9 de Julho de 1974  

 

O ensino particular conseguiu, ainda que só para este ano letivo, a igualdade com o oficial. O que significa que não tenho que me sujeitar ao período de exames.

Entretanto, iniciou-se a preparação da minha viagem de férias ao Portugal europeu. A Laura já me escreveu. Conto-lhe que vou de férias. Iremos estar tão perto e sem nos podermos ver. É tudo muito triste.

E este meu diário aproxima-se do seu inverno. Provavelmente não irei jamais despertar da sua modorra estas páginas. Nove meses e um fruto? Será o de ficar como um símbolo da minha adolescência. É tempo! Adeus companheiro leal, relíquia dos sentimentos que varreram o meu íntimo.

Ferreira de Castro acabou de abandonar, há dias, a vida.

 

 

15 de Julho de 1974  

 

Saímos hoje, eu e o meu pai, com o único propósito de irmos à livraria Académica, na Baixa. Há muitos dias que cortejava a capa de um livro, mas o interesse centrava-se no título: “Vida e Obra de Fernando Pessoa”, escrito por João Gaspar Simões. Conhecia alguma poesia do poeta. Mas o verbo conhecer é demasiado neutro para mostrar o ardor com que lia os textos, sobretudo, de Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Fascinava-me a multiplicidade de identidades em que o poeta se desdobrava. Saber da sua biografia foi um desejo quase imediato. Memorizei muitos poemas, dizia-os interiormente nas viagens para o colégio e de regresso.

Entrámos na livraria e o meu pai pediu o livro à empregada. Esta franziu o sobrolho a refletir, a tentar lembrar-se da obra. Saiu do balcão, foi à prateleira de poesia e procurou, vasculhou, e nada. Voltou a abanar a cabeça e a dizer que não o tinha. Eu, que acompanhei com o olhar a movimentação da senhora, não compreendia a sua hesitação e, muito menos, entendi a sua resposta. Disse-lhe onde estava o livro, e eu próprio fui à estante onde, no topo das prateleiras, e exposto por inteiro, se via o livro em toda a sua visibilidade. A senhora, com a ajuda de um banco, pegou no livro. Mas a cena impressionara a empregada e o meu pai. A ela, talvez por ilustrar a sua incompetência, ao meu pai, pelo que isto revelava do meu interesse pela literatura.

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