04 dez
Viseu

David Duarte

OPINIÃO

Fragmentos de um diário - 7 de abril de 1974

01 de agosto de 2020, 07:00

CLIPS ÁUDIO

Domingo. Era a hora calma e doce do soluçar da tarde. Os últimos cabelos do sol miravam-se no espelho das águas quietas e sonolentas que separam esta margem da outra, da Catembe. Um suspiro de aromas agradáveis envolvia as pessoas, o ambiente, as próprias conversas que dançavam no ar. Caminhava lentamente, mergulhado nos meus pensamentos e circum-navegando a vista pelos batéis que feriam a pele azul do pequeno lago artificial. Súbito, parei: na relva uma figura de rapariga emprestava uma nota branca à paisagem: era a Laura. Os nossos olhares cruzaram-se. Sorrimos. Ela, um sorriso de neve, aberto. Eu, um sorriso de espanto. As tranças frescas dos pinheiros curvavam-se, espiando-nos. Sentia-se, subindo e perdendo-se no além, um estremecimento qualquer. Um breve sinal de adeus. Acompanhavam-na dois pajens: o pai e um outro senhor. Ela, ao meio, com o loiro do cabelo a refletir a última luminosidade da tarde. Que vontade de fugir com ela! A Laura! Nunca a vira por aqueles sítios ao domingo. Os pais não costumam sair ultimamente, cada um fechado nas suas coisas. Só o pai, às vezes, vai ter com os amigos. Calhou neste domingo, passarem por aquele lugar. A Laura, que costuma acompanhá-lo, disse-me depois que sugeriu ao pai que fossem até ali.

De noite, no nosso esconderijo, vingámo-nos de todos os constrangimentos. Gosto tanto de acariciar o corpo do meu amor. Admiro o poder de sensibilidade das mãos. Do modo como por elas passa uma corrente, eu diria elétrica, que se transmite ao cérebro, ao coração, ao corpo. É um rio de doçura que me pacifica e me arde ao mesmo tempo. Gostaria tanto de permanecer para sempre dentro do meu amor, quase quieto, em êxtase, agarrado ao seu corpo como um menino ao colo de sua mãe.

Pergunto se os adultos se perderam deste prazer, se o esqueceram, ou se algo os fez distanciarem-se desta felicidade. Não entendo. Talvez terem que fazer pela vida lhes tenha gasto o poder do encantamento. Não quero ser adulto. Quero ser outro Peter Pan.

15 de Abril de 1974

A loucura deve ser isto: executar os afazeres do quotidiano mas com o pensamento longe. Estou nas aulas, ouço os professores, faço o que devo fazer.  Mas a imaginação ocupa-se de cada canto do corpo do meu amor. E o pensamento, tomado de assalto pela imagem da minha namorada, pelo loiro dos seus cabelos, pelo verde dos seus olhos, pelo seu sorriso, pelo tom aveludado da sua voz.

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