01 Jun
Viseu

Jorge Marques

OPINIÃO

Lavar as mãos

De todos os nossos sentimentos, a insegurança é o mais antigo. Por isso nos agarrámos a tudo, desde a modernidade á ideia que o Homem podia controlar a Natureza

21 de Maio de 2020, 15:33

CLIPS ÁUDIO

De todos os nossos sentimentos, a insegurança é o mais antigo. Por isso nos agarrámos a tudo, desde a modernidade á ideia que o Homem podia controlar a Natureza. Depois acreditámos nas certezas das tecnologias, que elas poderiam até evitar as catástrofes, como é o caso desta pandemia. Continuaremos a acreditar e aceitar tudo o que nos prometa segurança, até a perda da liberdade. Mas temos também que concordar, que apesar do enorme salto das ciências, tecnologias e capacidades humanas, essa promessa ainda não foi cumprida. Ciclicamente regressa esse velho sentimento de insegurança, acompanhado da incerteza e ignorância sobre o melhor caminho a seguir. O controlo do Homem sobre a Terra é um mito, o melhor é dialogar com ela. Mas o que é isso da incerteza?

Uma boa imagem é aquela em que precisamos de um mapa, estamos desorientados, sem referência onde estamos e nem para onde queremos ir. Nestes casos, tudo o que precisamos não é de muitas informações, mas informações relevantes, condições para as avaliar e ordenar com sentido e propósito. Surge aí o primeiro problema, o que recebemos como resposta são outros mapas ilegíveis e referências ambíguas. Ocorre uma tempestade de informações, opiniões, sugestões, recomendações, insinuações muitas vezes contraditórias, que acabam por nos remeter para a indiferença. Em catástrofes com esta, tudo o que se espera é que passe depressa e reagimos melhor a acidentes pontuais do que aos prolongados no tempo. A própria solidariedade vai-se tornando mais fraca.

Mas nós temos um mapa de orientação e que são os nossos próprios sentidos. São eles que nos dão a capacidade para ver, ouvir, cheirar, tocar e sentir a realidade. Só que nesta confusão de informações contraditórias dos estados de crise, esses sentidos entram em disfunção e ficamos incapazes de os usar bem. Talvez porque incerteza quer dizer risco, isso não ter regras e precisar de escolhas e decisões.

O que não podemos fazer é a figura de Pilatos e simplesmente lavar as mãos. Precisamos forçar que aconteçam mudanças sérias e não o regresso á falsa normalidade…

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