29 set
Viseu

Rui Macário

OPINIÃO

Os sobressaltos de se ser estátua em 2020

“Se lhe desse um rompante, que estátua pintaria de vermelho?”

27 de junho de 2020, 07:00

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Em recente entrevista ao DN e quanto à pergunta “Se lhe desse um rompante, que estátua pintaria de vermelho?”, respondia Lídia Jorge:

“Assim de repente... já não há nenhuma de Salazar... a do padre António Vieira é que de modo nenhum, no máximo melhorar a conceção artística da figura iconográfica. Que os historiadores dizem ter de se respeitar integralmente porque o tempo histórico assim exige, mas eu acho que não é bem assim. Estive em Budapeste quando se derrubaram as estátuas de Lenine e, de facto, quando vi aqueles monstros deitados no chão fiquei contente. Fizeram bem, era uma coisa prepotente e artisticamente não tinham valor, porque não passavam de uma espécie de menir plantado no meio da cidade - e o ícone em si era ofensivo. Compreendo esses momentos da história em que a mensagem iconográfica seja tão forte e tão repulsiva que derrubem as estátuas.”

Mas dizia igualmente que qualquer contextualização – de estátuas, monumentos em geral e da História em particular – não deve ocorrer “(…)com um olhar de vingança e muito menos se pode fazer um ajuste de contas de maneira a repor a história e a recompensar povos. Isso é desajustado, o importante é pôr em marcha uma solidariedade contemporânea e não retrospetiva. Repor cinco séculos de história e recompensar cinco séculos depois não é justo. Não sou a favor da justiça retroativa mas da fraternidade projetiva”.

 

Cada comunidade é, antes de mais, um conjunto de indivíduos agregados territorialmente. Primeiro associados no âmbito de uma família (gens romana ou clã, será o mesmo), depois em grupos, indivíduos com comuns interesses, práticas, ou motivações. Só depois vem a comunidade de que se fala tantas vezes, a comunidade “identitáriamente” definível… Cada comunidade é então um conjunto de grupos, que é um conjunto de famílias, que é um conjunto de indivíduos…

Cada um de nós terá uma estátua que pintaria de vermelho e uma estátua que impediria de ser pintada. Cada um de nós estaria do lado oposto ao do nosso vizinho, numa estátua, ao menos (mesmo que se concordasse com todas as outras).

As estátuas que agora se pintam ou derrubam seguem apenas o caminho de outras que, no passado, se pintaram ou derrubaram. As estátuas trasladam-se ou destroem-se. As comunidades mudam. O símbolo que cada estátua é, altera-se, lê-se de outra forma, com o Tempo. Por vezes perde qualquer leitura. Torna-se esdrúxula, a estátua.

O agora das estátuas é uma outra coisa. É o de um conjunto de indivíduos, famílias, grupos… que luta por algo diferente; é uma revolução, em certa medida. Só não se pode perder de vista que a cada marca que apagamos permitimos que nos apaguem também uma marca; se se criar uma lógica de nós contra outros. A bem da ausência de hipocrisia, teria de ser uma troca, um diálogo. A História já foi escrita. Por mais erros que contenha.

A nova História, ou melhor, a História nova, aquela que está por escrever, é que deve incluir a ausência de abusos por que se luta agora, através das estátuas, ou usando as estátuas como símbolos. As mesmas que se erigiram, demovem-se. Simbolicamente mantêm o seu valor (ou não seriam removidas dos pedestais). Para melhor ser estátua, qualquer estátua deveria trazer o seu caderno de intenções e de explicações. Não trazendo fica à mercê de não se saber bem quanta tinta lhe deve ser aplicada e apanha o “justo pelo pecador”, desde que em bronze, como o “outro”…

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