16 Jul
Viseu

Jorge Marques

OPINIÃO

Os sonhos e a matemática

Nós somos feitos de arte e de ciência, de sonhos e de matemática e vivemos bem com estas diferenças

27 de Maio de 2020, 15:49

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Nós somos feitos de arte e de ciência, de sonhos e de matemática e vivemos bem com estas diferenças. A ideia de as separar foi ultrapassada nos anos oitenta do século passado e provada cientificamente pelo português António Damásio. Razão e emoção estão ligadas.

Mas as tentativas de separação continuam e acontecem quando se valoriza e investe forte no lado de um certo racionalismo e nada na arte. Sem esse investimento, ela vai ficando mais pobre, sem capacidade de criação e a prazo torna-se deficiente. O esquecimento da arte e dos artistas, em paralelo com a forma socialmente mal preparada em como se querem impor certas tecnologias obriga-nos a tocar o alarme. Uma parte importante do Homem está a ser deliberadamente silenciada!

Esquecem-se que foram a imaginação e a obra de muitos artistas, que produziram importantes reflexões e afirmações que abriram caminhos á ciência. Não é por acaso, que quando perguntam ao neurocientista António Damásio qual o colega que mais o influenciou, ele responde que foi Shakespeare. A imaginação artística chega sempre primeiro, mas parece haver tentativas de a querer limitar. E como? Retirando a cultura da circulação ou dificultando o seu acesso; colocando os artistas a pão-e-água; matando o livro e a imprensa escrita, aquilo que nos dava tempo de reflexão, imaginação e empatia; limitando as relações sociais e os sentimentos por elas produzidos; elevando a superficialidade a uma condição divina; amarrando-nos ao agora; alimentando o enredo dos milhões.

Claro que o problema não são as tecnologias, nem as máquinas que pensam, o problema é que o Homem deixe de pensar. O caminho está em humanizar a tecnologia, o perigo em mecanizar um Homem sem cultura. As tecnologias são sempre bem-vindas quando contribuem para o progresso humano. Não o são quando suportes do pensamento velho de uma economia que cultiva a híper-racionalidade, egoísmo, individualismo, o controlo do Homem, o pensamento único ou quando são meros números de circo. Tudo isto reaparece em tempos de crise e aproveita-se das nossas fragilidades…         

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