06 Ago
Viseu

José Mateus

OPINIÃO

Sempre como a única vez

Um primeiro espetáculo na ACERT, depois do confinamento, e uma exposição de fotografia no Museu Terras de Besteiros, ajudaram-me a pensar na experiência teatral como transversal a todas as artes.

30 de Julho de 2020, 19:00

CLIPS ÁUDIO

Tem-se falado muito – e ainda bem – dos meios digitais como uma espécie de última fronteira para a sobrevivência da atividade cultural (presencial) em tempos de pandemia. Falando de teatro, numa primeira fase algumas companhias disponibilizaram na internet gravações dos seus espetáculos, para se “assistir” em casa como se se tratasse de um programa de televisão por cabo. Depois, fizeram-se experiências mais intimamente relacionadas com a especificidade do meio digital. Ensaiar de forma distribuída (cada ator em sua casa), e atuar do mesmo modo, com a experiência de grupo a ser criada no ecrã. Assisti à primeira sessão ao vivo depois do confinamento, na ACERT – o espetáculo “TERRA” do Trigo Limpo teatro ACERT – e voltei a
sentir o privilégio de estar numa sala com outros espetadores e com atores de carne e osso no palco. Motivo para conversar com Pompeu José (que integra o elenco do Trigo Limpo teatro ACERT) sobre a especificidade da performance teatral. Qual a diferença entre atuar no palco e trabalhar para cinema ou televisão? Pode-se comparar as experiências digitais com esta última situação, apenas porque não existe público?
Segundo Pompeu, em palco tem de se atuar sempre como se fosse a primeira e única vez.
Nunca se pode transmitir a sensação de repetição. Pompeu utiliza mesmo a metáfora de uma missa: tem de se estar sempre em palco numa celebração única e irrepetível.
No Museu Terras de Besteiros encontra-se em reposição a exposição de fotografia “A Beleza que não é só minha…” Projeto desenvolvido ao longo de dois anos por Patrícia Marques, com os alunos da Universidade Sénior de Tondela, à volta da relação entre o envelhecimento, a sensualidade e a sexualidade. Qual a relação entre a imagem que um espelho nos dá de nós próprios (numa idade mais avançada), a visível transformação do corpo e mesmo assim o sentimento interior de um certo equilíbrio e naturalidade? Ou seja, a sensação de nos sentirmos bem no corpo, como se costuma dizer.
Partindo de imagens dos anos 20 e 30, em que a beleza individual foi celebrada de forma entusiástica, foram realizados retratos de todos os alunos, vestidos à época e numa “pose teatral” relacionada. A fotografia é de Carlos Teles e a produção de Carla Gouveia. Segundo Carlos Teles, não se procurou fazer o retrato da pessoa, mas sim da personagem que assumiu.
Cada um(a) selecionou uma imagem com que se identificava, ou referiu uma parte do seu corpo que gostava mais ou que pelo contrário incomodava, e o fotógrafo trabalhou a partir daí. Criou-se uma atmosfera especial, que já não se conseguiu manter completamente sempre que por motivos técnicos foi necessário repetir, mais tarde, uma sessão fotográfica. É que da primeira vez, cada sessão tinha decorrido como se fosse uma única vez.

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