09 mar
Viseu

Filipe Carreira - Enfermeiro

OPINIÃO

Ser cuidador nos dias de hoje…

22 de fevereiro de 2021, 15:51

CLIPS ÁUDIO

Com a evolução da ciência, a esperança média de vida tem aumentado e, associando diminuição da natalidade e mortalidade, tem-se verificado um acentuado envelhecimento da população. A este envelhecimento junta-se o aumento da prevalência de pessoas com doenças crónicas incapacitantes, com novas necessidades de saúde e sociais que requerem respostas diversificadas. O grau de dependência destas pessoas acarreta a necessidade de existência de um cuidador, quer a nível da residência pessoal, quer ao nível de uma instituição.

Um cuidador é uma pessoa remunerada ou não remunerada que ajuda a pessoa a realizar as suas atividades de vida diárias. Podem ser considerados dois tipos de cuidadores: cuidador formal e cuidador informal. Cuidador informal é um familiar, amigo, vizinho, com quem o utente já tem uma relação pré-estabelecida. Nestes casos, grande parte das vezes, os cuidadores residem com os utentes. Cuidador formal é um prestador de serviços com capacidade para dar resposta às necessidades dos utentes, podendo ser uma pessoa individual, ou contrato com uma empresa.

Ser cuidador é muito mais que cuidar! Um cuidador deve obedecer a um conjunto de competências como: ser comunicativo, ou seja, que a comunicação seja eficaz e adequada à pessoa que cuida, ser empático, isto é, conseguir perceber as dificuldades que o utente apresenta e compreendê-las, demonstrando o afeto e carinho necessário, para com a pessoa que já se encontra numa situação de fragilidade. 

As funções do cuidador passam por apoio na higiene do utente, na manutenção e higienização do espaço onde ele se encontra, na gestão da lavandaria, na compra dos produtos de higiene adequados, acompanhamento a consultas, na monitorização do estado de saúde (vigilância dos sinais vitais – respiração, temperatura, batimentos cardíacos, tensão arterial, entre outros), apoio na alimentação, atividades sociais e cognitivas, gestão da terapêutica, entre outros.

Cuidar de uma pessoa dependente não é das tarefas mais fáceis que existe, sobretudo na situação de cuidador informal que, por vezes, se traduz num acompanhamento constante, 24h por dia, podendo levar à exaustão. É aconselhável o recurso a estratégias de refugio, que permitam “desligar-se” temporariamente da situação de cuidador e cuidar de si próprio. Para que isto possa acontecer, por vezes é necessário recorrer a um terceiro elemento que possa substituir o cuidador, ainda que por curtos períodos.

Em 2019 foi criado o estatuto de cuidador informal que veio trazer alguns benefícios a quem cuida de outrem, atribuindo direitos e benefícios sociais. Ficou assim definido que cuidador informal é um familiar que preste assistência, de forma permanente ou não, a um membro da família que se encontre numa situação de dependência de cuidados básicos por motivos de incapacidade ou de deficiência, podendo ser cuidador informal principal ou cuidador informal não principal. Considera-se como cuidador informal principal o cônjuge ou unido de facto, parente ou afim até ao 4º grau da linha reta ou da linha colateral da pessoa cuidada, que cuida e acompanha de forma permanente. O cuidador informal não principal é o cônjuge ou unido de facto, parente ou afim até ao 4º grau da linha reta ou da linha colateral da pessoa cuidada, que acompanha e cuida de forma regular, mas não permanente.

Neste sentido, a legislação contempla os seguintes benefícios do cuidador informal:

Ver reconhecido o seu papel fundamental no desempenho e manutenção do bem-estar da pessoa cuidada;

Ser acompanhado e receber formação para o desenvolvimento das suas capacidades e aquisição de competências para a prestação adequada dos cuidados de saúde à pessoa cuidada;

Receber informação por parte de profissionais das áreas da saúde e da segurança social;

Aceder a informação que, em articulação com os serviços de saúde, esclareçam a pessoa cuidada e o cuidador informal sobre a evolução da doença e todos os apoios a que tem direito;

Aceder a informação relativa a boas práticas ao nível da capacitação, acompanhamento e aconselhamento dos cuidadores informais;

Usufruir de apoio psicológico dos serviços de saúde, sempre que necessário, e mesmo após a morte da pessoa cuidada;

Beneficiar de períodos de descanso que visem o seu bem-estar e equilíbrio emocional;

Beneficiar do subsídio de apoio ao cuidador informal principal, nos termos previstos neste Estatuto;

Conciliar a prestação de cuidados com a vida profissional, no caso de cuidador informal não principal;

Beneficiar do regime de trabalhador-estudante, quando frequente um estabelecimento de ensino;

Ser ouvido no âmbito da definição de políticas públicas dirigidas aos cuidadores informais.

Nos dias de hoje, ao cuidador acresce um desafio que nos acompanha já há um ano. A COVID-19 e a necessidade de promover igualmente a prevenção da contaminação por esta doença, quer do próprio cuidador, quer da pessoa que cuida, pela fragilidade que este apresenta. Assim, ao cuidador, compete cumprir, ensinar e reforçar, junto da pessoa cuidada, as medidas de prevenção de contaminação.

Perante a complexidade dos vários contextos, o cuidador deve recorrer às informações divulgadas pela Direção Geral da Saúde, podendo solicitar apoio da sua unidade de saúde familiar de forma a obter mais informação, quer para a obtenção do estatuto de cuidador informal, quer para apoio nas questões da prevenção da COVID-19.

O esforço do cuidador traduz-se na satisfação de promover o bem-estar do o

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