09 Jul
Viseu

Manuela Barreto Nunes

OPINIÃO

Um adeus português

"O amor é passado ou é futuro, nunca presente"

14 de Fevereiro de 2020, 00:00

CLIPS ÁUDIO

Dizem os filósofos e os poetas que o amor é passado ou é futuro, nunca presente. Que o amor é sofrimento, ausência, alteração dos sentidos, palpitação, angústia permanente. Por isso almoce-se, jante-se, ofereçam-se flores nos dias certos e ficcione-se a felicidade: mas o amor, o amor dói tanto quanto liberta e extasia, feito de memória e de esperança, desfeito em auto-comiseração e ternura. Tomemo-lo então do O’Neill, Alexandre O’Neill, autor de um dos mais belos poemas de amor da história de toda a literatura: “Um adeus português”.

“Nos teus olhos altamente

perigosos 

vigora ainda o mais rigoroso

amor

a luz de ombros puros e a sombra

de uma angústia já purificada

 

Não tu não podias ficar presa

comigo 

à roda em que apodreço 

apodrecemos

a esta pata ensanguentada

que vacila

quase medita 

e avança mugindo pelo túnel

de uma velha dor 

 

Não podias ficar nesta cama

comigo 

em trânsito mortal até ao dia

sórdido 

canino 

policial 

até ao dia que não vem da

promessa

puríssima da madrugada 

mas da miséria de uma noite

gerada 

por um dia igual 

 

Não podias ficar presa comigo 

à pequena dor que cada um de nós 

traz docemente pela mão

 a esta dor portuguesa

 tão mansa quase vegetal 

(…)

 

Nesta curva tão terna

e lancinante 

que vai ser que já é o teu

desaparecimento

digo-te adeus

e como um adolescente

tropeço de ternura

por ti.”

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