11 Ago
Viseu

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Cultura

Crónica Teatro Viriato | Ep10 O disfarce da realidade

CLIPS ÁUDIO

2020

Ep10 | O disfarce da realidade

O disfarce da realidade

Roland Barthes pegou numa fotografia de 1852 de Jérôme, o irmão mais novo de Napoleão, e, denunciando o seu espanto, escreveu, em Camera Lucida: «estou a olhar para uns olhos que já olharam o imperador». O que o impressionava não era estar perante a fotografia de alguém notável, mas a ideia de estar perante alguém que já existira. 

A fotografia, o cinema, o teatro, a dança, são fruto desta mania que os seres humanos têm de capturar bocados do mundo para pensarem sobre ele. A prática artística é o ofício de manter um diálogo vivo e desafiante entre o nosso tempo fugaz no planeta e a realidade incompreensível do universo.

Por estes dias, todos discutimos restrições, incansavelmente. No trabalho, nos transportes públicos, nos cafés e restaurantes, nos museus, e, claro, também nos teatros, e nas salas de cinemas. Frascos de desinfectante nas entradas, uso obrigatório de máscaras, regras de afastamento entre equipas que colaboram, novas regras para a utilização de camarins ou do ar condicionado. A situação é tão desconcertante que é fácil estas discussões técnicas secundarizarem a nossa missão: a de estarmos abertos, criando, produzindo e acolhendo obras que estejam em sintonia com os tempos em que se vive.

Ontem, num raro momento de silêncio mas ainda em frente ao computador, cruzei-me com Ingrid Bergman em Casablanca. Revi um excerto desse filme estreado à pressa, em novembro de 1942, só para se sintonizar com a realidade tumultuosa do seu tempo. Os Estados Unidos juntavam-se a França e a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, e, no filme, o americano Rick Blaine e o inspector francês Renault iniciavam a sua “nova e bela amizade” num aeroporto semivazio, permitindo a partida de Victor Laszlo, para se juntar à Resistência. Contra todas as impossibilidades, Rick e Ilsa prometem nunca esquecer Paris e beijam-se.

E nesse momento pensei: Um beijo, filmado hoje, não pode ser um beijo a fingir. Terá de ser um beijo entre pessoas que já se amam fora de cena, ou que se querem muito beijar em nome da arte do cinema. Terão de se confinar durante 14 dias, fazer testes antes das filmagens, ou simplesmente arriscar a saúde ao fazê-lo no momento em que se diz: “Acção!”

Num tempo em que podemos construir um filme inteiramente num computador, manipulando imagens pré-gravadas de actores mortos ou de paisagens extintas, questionamos hoje, como nunca, qual o lugar de verdade na obra artística. 

Podemos representar a realidade, reinventá-la, refazê-la, repensá-la, mudar o seu curso, mas não a podemos disfarçar. Nem obrigá-la a não acontecer.  

Para a semana reabrimos as portas físicas do Teatro Viriato com um concerto que só pode existir porque é feito por uma família que vive e toca sob o mesmo tecto, um grupo de artistas que continuou a abraçar-se e a beijar-se, sem distância, durante estes meses de confinamento. Tangerina, da Gira Sol Azul, é uma das poucas criações que não foi recalendarizada ou transformada noutro objecto artístico, mantendo-se no programa do Teatro Viriato. Venham espreitar. Cá estaremos, na companhia de Hígia, deusa da saúde, da limpeza e da sanidade, para vos acolher de braços abertos, com todo o cuidado e carinho.

 

Patrícia Portela | 26 de maio de 2020

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