11 Ago
Viseu

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Cultura

Crónica Teatro Viriato | Ep11 Desmascarar de máscara

CLIPS ÁUDIO

2020

Ep11 | Desmascarar de máscara

Desmascarar de máscara

Há pouco mais de seis meses, o governo de Hong Kong legislava a proibição do uso de máscaras em manifestações públicas. Tal adereço não permitia identificar devidamente os manifestantes, por um lado, nem intoxicá-los com gás lacrimogéneo e assim dispersá-los com eficácia, por outro. Como sinal de protesto, os estudantes, que na altura lutavam contra a lei da extradição para a China, saíram à rua mascarados, com fatiotas completas, no dia das bruxas. Na semana passada, milhares de manifestantes, nos Estados Unidos e não só, saíram à rua apesar das restrições e do uso obrigatório de máscaras, em nome de George Floyd, um homem afro-americano de Minneapolis que morreu, depois de ter estado algemado, de cara no chão, com um joelho de um polícia branco a esmagar-lhe o pescoço.

Há oito meses, um grupo de alunos da disciplina de Interpretação iniciava o seu curso de Teatro em salas de aulas, nunca imaginando que o terminaria em plataformas digitais. Alguns deles talvez nunca tenham pisado um palco, até hoje, e talvez nunca tivessem decorado um texto para uma plateia tão bela como a do Viriato, mas nenhum deles recusou colocar a máscara do Teatro para continuar a desmascarar os males da sociedade, defendendo um futuro em que acreditam, sempre perante um público que se vai revelando cada vez mais ávido de outras vozes.  

Nesta semana, recebemos no Teatro Viriato os exercícios finais destes alunos de Interpretação do segundo ano da Escola Superior de Artes das Caldas da Rainha, sob a direcção de Joana Craveiro, artista residente do nosso Teatro. Mas não os recebemos no palco, como acontece, já no próximo sábado, com o espectáculo para a infância Tangerina de Gira Sol Azul. Recebemos, sim, e como anfitriões, os seus mais diversos mundos através da plataforma Zoom. Monólogos na Gafanha da Nazaré, dentro de veículos automóveis em Pombal, confissões em Ansião ou Colmeias, passeios inesperados em Ponte de Sor, ou pela Baixa da Banheira, em Leiria, Altura ou Alcobaça… Lugares onde se encontram hoje, e onde se mantiveram a ensaiar, incansáveis, durante todo o período do confinamento.

Ninguém melhor do que eles para nos confirmarem que o futuro se desenha em aliança. Alianças entre artistas independentes, actores recém-formados e veteranos profissionais, entre instituições culturais, científicas e outras. Entre escolas e teatros. Entre golpes de asa de projectos que nos parecem impossíveis e esse imenso palco que é a rua.

Porque o tão badalado distanciamento social não é sinónimo de afastamento das causas que nos movem.

Porque o uso da máscara não nos impede de falar, de narrar, nem mesmo de respirar.

Juntemo-nos, enquanto público, à garra e à vontade destes artistas do futuro, durante os próximos dias.

Que outra missão poderá ter uma casa de criação que não a de dar uma mão a todos aqueles que continuam a ecoar as dores silenciadas do mundo, agarrando com  a outra mão a sorte das musas, e a bênção de Hígia, deusa da saúde, da limpeza e da sanidade?

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