11 Ago
Viseu

Foto Arquivo Jornal do Centro

Cultura

Crónica Teatro Viriato | Ep12 As Pedras dançam por dentro

CLIPS ÁUDIO

2020

Ep12 | As pedras dançam por dentro

As Pedras dançam por dentro

 

Alguém, como eu, ou tu, acaba de celebrar 16 anos quando o mundo, lá fora, furioso e sem aviso, lhe puxa o tapete e lhe mostra que não é o que sempre foi, como aliás, há muito já se suspeitava. 

Alguém, como tu, ou como eu, passa agora o seu tempo fechado no quarto por causa de um vírus. Não passa as quartas-feiras com os avós nem as sextas-feiras com os amigos do skate. A pessoa que mais vê acaba por ser aquela professora, de olheiras até ao queixo, que, sem conseguir disfarçar as recorrentes insónias, crasha à tua frente, no ecrã do computador, enquanto te dá uma aula sobre uma matéria em que nenhum dos dois, neste momento, acredita. 

Alguém, como tu, ou como eu, de 16 anos, fechado num quarto, conclui que ninguém o deixa fazer nada do que o faz feliz, e que todos fazem questão de o obrigar àquilo que, tem a certeza, não lhe vai fazer falta nenhuma nem para concretizar os seus sonhos, nem para amar, nem para ser melhor pessoa. 

Já nem faz sentido trancar-se no quarto como forma de protesto. 

Há uma diferença entre não poder sair e não querer sair. E alguém, como tu, ou como eu, está agora fechado à chave num castigo sem culpa. E telefona todos os dias quando acorda àquele amigo com quem começou mesmo há dias a jogar à bola. E passa a noite a conversar com aquela amiga que fez já depois da pandemia, numa reunião de um projeto estranho, com um nome estranho, sobre uma dança estranha. Um projeto que juntou, em abril passado, muitos alguéns como tu, ou como eu, de Viseu, de Lisboa, e do Porto, mesmo com um vírus pelo meio a querer estragar tudo. 

- Onde já se viu uma pedra dançar?! - Estranhaste tu, em Viseu, antes de começares os ensaios a partir do repertório da coreógrafa Vera Mantero. - As pedras dançam por dentro – esclareceu ela, que já participava no projeto pela segunda vez. 

E por vezes precisamos só disto, não é? De alguém que nos ajude a ser quem somos, mesmo quando estamos obrigados a ser quase nada, fechados num quarto, a tentar dançar por dentro. 

Durante dois meses e meio desarrumámos esse quarto sem tapete, fizémos do chão um palco, e colocámos a música no máximo (e os auriculares). O resultado são três vídeos fora da caixa

P.E.D.R.A. foi um projeto com a duração de três anos que teria terminado com um grande encontro em Lisboa. Dadas as circunstâncias, só terminará quando os participantes assim o entenderem. 

E enquanto houver musas e hígias, deusas da limpeza, da sanidade e da saúde, haverá sempre pedradas no charco. Venham ver o resultado, e participem na conversa de 14 de junho, pelas 18h nas plataformas digitais da Culturgest, em Lisboa, do Teatro Municipal do Porto, no Porto, e do Teatro Viriato em Viseu. 

Até já!

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