11 Ago
Viseu

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Cultura

Crónica Teatro Viriato | Ep13 A minha vida por um zombie

CLIPS ÁUDIO

2020

Ep13 | A minha vida por um zombie

A minha vida por um zombie

Um grupo de cientistas franceses, num centro de controlo de doenças contagiosas, está muito próximo de encontrar a cura para zombies, mas uma “falha de energia” não permite avançar na pesquisa. Sem acesso a electricidade, todos os aparelhos no laboratório deixam de funcionar e, por razões de segurança, o edifício prepara-se para se autodestruir em 1 minuto e, com ele, o futuro da humanidade. Um dos cientistas, sem poder sair, comenta com os outros antes de morrer: 
– Quem é que teve esta tão estúpida ideia de alimentar computadores a energia fóssil?
Estes eram os últimos minutos do sexto e último episódio da primeira temporada da série norte-americana Walking Dead, em 2010, uma série baseada no livro gráfico com o mesmo nome, de Robert Kirkman e Tony Moore.

Mortos-vivos, vampiros, fantasmas ou extraterrestres todo-poderosos sempre surgem quando a sociedade parece atingir um limite. Como em 1815, após a erupção do vulcão Tambora, na Indonésia, que colocou a Europa às escuras e lançou Mary Shelley na escrita de Frankenstein e John William Polidori na escrita de «O Vampiro», ambos a pernoitar em Villa Diodati, no lago de Genebra. Como em 1897, quando Bram Stoker imagina Drácula a partir da história e da geografia de uma região como a Transilvânia e revela uma escuridão imensa por trás das glórias industriais da era vitoriana. Como em 1968, onde A Noite dos Mortos-Vivos se filma durante a revolução Flower Power nos Estados Unidos e a revolta dos estudantes em França. Ou como hoje, dia em que sobe ao palco do Teatro Viriato a leitura encenada de Ex-Zombies: uma conferência, de Alex Cassal. A emigração forçada, as alterações do clima, o pré e o pós-apocalipse, são alguns dos temas regulares deste dramaturgo e encenador brasileiro a viver em Lisboa. 

A tarefa daquele que escreve é captar o que há de virtual no actual, compreender o que já lá está mas ainda não é visível, criticar a sociedade presente. Mas quando o escritor executa a tarefa hercúlea de reimaginar o mundo, fá-lo por necessidade de procurar a mudança ou fá-lo porque não tem como não o fazer? E o que escreve tem impacto naquele que lê?
Numa das últimas entrevistas feitas a Fidel Castro perguntaram-lhe:
Se lhe dessem a escolher entre escrever a obra da sua vida e com ela mudar o mundo dramaticamente, sem que o mundo alguma vez soubesse quem tinha promovido essa mudança, acabando os seus dias na miséria, ou ser considerado o melhor escritor do seu tempo, tornar-se famoso, escrever obras-primas lidas por muito poucos mas consideradas por muitos como um retrato rigoroso da sociedade como ela é mas sem a alterar, o que escolheria? 
Alex Cassal talvez respondesse: mais do que saber onde estamos ou para onde vamos enquanto escrevemos, “é importante escolher ao lado de quem queremos estar”. Presentes. Fisicamente. Apesar de uma pandemia. 

Venha ler o mundo pelo olhar de Cassal. Quem sabe, pode chegar a casa com um antídoto contra a atitude contagiante de carregar o seu telemóvel na corrente eléctrica para ver mais uma série na Netflix. Deixe-se antes contagiar pelo encontro com as musas e com Hígia, deusa da saúde, limpeza e sanidade, para muitos também chamada de Lua, que hoje, se reparar, está quase nova.

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