11 Ago
Viseu

Foto Arquivo Jornal do Centro

Cultura

Crónica Teatro Viriato | Ep14 Sócrates ou a dança sobre o que não se sabe

CLIPS ÁUDIO

2020

Ep14 | Sócrates ou a dança sobre o que não se sabe

Sócrates ou a dança sobre o que não se sabe

Este homem já tinha percorrido o mundo inteiro antes de chegar ali. Ou pelo menos assim o sentia. Já tinha feito muito, discutido muito, discordado muito, aprendido muito, mas queria saber mais. Não lhe parecendo valer qualquer das soluções encontradas para os problemas colocados, o homem determinou que era mais sensato parar.
E assim fez. Ficou onde estava, a pensar, o dia inteiro, de pé, sem se mexer, frente a uma árvore. A sua concentração era tanta que conseguia ouvir, dentro do seu pensamento, o mundo inteiro a mover-se.

Antes de retirar qualquer conclusão, teve o homem tempo de rever a sua longa caminhada até ali. A sua e a de tudo o que se movera com ele até então. Lembrou-se do oráculo que lhe dissera que ele era o bicho mais sábio do mundo. E como ele acreditou que os deuses não mentiam, partiu à descoberta da sua própria sabedoria pois não a conhecia; quando se deitava à noite, era atormentado pela incerteza e pela dúvida porque, no fundo, sabia que não sabia assim tanto. Lembrou-se do momento em que decidira parar, e de como, após um longo tempo parado, decidira voltar a falar. E partiu de novo. Procurou o ser humano mais sábio de todos e percebeu que  não era assim tão sábio. Decidiu ir falar com um poeta – e também ele não era sábio. Foi falar com um político, com um governante– e também ele não era sábio. Decidiu falar com um economista, com um arquitecto, com um médico, e concluiu, com mais desapontamento do que desilusão, que, afinal, era ele o mais sábio de todos. Simplesmente porque sabia que nada sabia, enquanto todos os outros, que sabiam muito, eram inconscientes do seu não saber. Invadiu-o uma felicidade que há muito esquecera. E ali mesmo decidiu que iria ensinar o que não sabia a toda a gente. Que em vez de dar respostas faria perguntas, em vez de certezas lançaria dúvidas, suposições, possibilidades.

Tantas perguntas fez, que arranjou, o homem, muitos inimigos, todos ilustres e poderosos conhecedores das mais variadas matérias, e todos incomodados com a ideia de alguém sem pedigree poder questionar a sua sabedoria. E porque podiam, prenderam o homem e condenaram-no à morte. E a morte era tema sobre o qual sabia ainda menos do que tudo o que não sabia da vida. Bebeu um copo com uma infusão de flores, fez uma última homenagem a Hígia, deusa da saúde, da limpeza e da sanidade, e fechou os olhos. 

O que terá aprendido com a sua morte não se sabe, mas deixou viva esta vontade de conviver com o que se desconhece. Talvez por isso, hoje, o teatro, filho das musas mas também de filósofos, seja o lugar mais apropriado para se aprender com os que desconhecem e por isso sabem mais do que nós. Talvez por isso, hoje, o Teatro Viriato, alinhado com todos aqueles que preferem as perguntas às respostas, convida a escola de dança Lugar Presente a habitar o seu palco e a apresentar as provas de aptidão artística dos seus finalistas. 

Os nossos futuros mestres são aqueles que nos fazem perguntas às quais não sabemos ainda responder. E é para o que ainda não sabemos que queremos caminhar.

Ouça e trabalhe ao mesmo tempo

Destaques

Podcasts