11 Ago
Viseu

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Cultura

Magazine Teatro Viriato | Ep15 Da boca para fora

CLIPS ÁUDIO

2020

Ep15 | Da boca para fora

Da boca para fora

Uma afirmação pode não ser correcta e ser generalizadamente aceite e até celebrada como solução; basta que seja capaz de se afirmar. 

É mais incómodo reconhecer a validade a um facto que se julga não ter acontecido (ou que se deseja que não tenha acontecido) do que acreditar numa mentira que sirva uma convicção. Com inesperada regularidade, construímos histórias paralelas, optamos por rotinas complexas ou evitamos determinados tópicos, só para podermos enfrentar os dias com algum grau de certeza do que somos e do que andamos por aqui a fazer. 

Podemos chamar-lhe negação, descrença, indiferença, cinismo, estratégia política, ilusão. Depende da situação e do lugar que ocupamos a cada momento... Não é fácil viver em dias de epidemia e manter uma rotina que nos dita “normalidade”. 

A capacidade de ver apenas aquilo em que se crê  é um dos maiores fascínios e uma das maiores tragédias da condição humana. Seja essa crença num deus, num amante ou numa missão de vida. O que nos leva a perseguir um sonho, uma profissão ou uma forma de estar não é a garantia de que essa escolha seja a melhor ou a mais vantajosa mas sim a possibilidade de a sentirmos como a mais certa.  

A verdade, na verdade, nunca foi uma prioridade para o ser humano, e, no entanto, a realidade, secretamente, sempre o foi, sobretudo a da morte, sobretudo a de cada dia. E essa realidade treina-se, disciplina-se, contorna-se, reformula-se, imagina-se, melhora-se.

Penso em tudo isto enquanto estou sentada numa sala onde em breve vou ouvir, discutir e decidir, entre pares, a atribuição de uma bolsa a um novo artista, para um novo projecto , entre setenta e oito candidaturas. Uma decisão que mudará por certo a vida de quem escolhermos (e, inevitavelmente, dos restantes 77), mas também a nossa, que teremos de assumir o resultado. Na sala ao lado, ensaiam São Castro e António M. Cabrita, directores artísticos da nossa companhia de dança residente. Treinam arduamente o gesto que ainda desconhecem e que irão partilhar connosco em Novembro, na estreia da sua nova peça intitulada Sinais de Pausa. No palco, mais tarde, estará a equipa inteira do Teatro a receber uma formação em primeiros socorros. De uma perna partida à falta de ar (ou de ideias), estaremos todos preparados para acolher todo o tipo de espectadores e de artistas nesta casa, na próxima temporada. 

Uma afirmação pode não ser correcta e ser aceite, sendo celebrada e até espalhada como solução; mas uma acção necessita de energia, de impulso e de mestria para se concretizar da melhor maneira. Energia e vontade, que pertencem aos audazes, aos lutadores e aos que, mesmo no mais negro dos cenários, acreditam no que fazem e acreditam que o que fazem deve ser partilhado com o próximo. Trabalho num desses lugares, cheios de audazes, onde essa chama olímpica arde. Chama guardada pelas musas, é certo. Cuidada, felizmente, por Hígia, deusa da saúde e sanidade. Mas sobretudo acesa e a vibrar, graças àqueles que não afirmam, apenas, não sonham, apenas, mas fazem, constroem os nossos dias, mesmo que, por vezes, essa construção nos pareça invisível.

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