11 Ago
Viseu

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Cultura

Magazine Teatro Viriato | Ep16 Para Ennio Morricone, em 3D

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2020

Ep16 | Para Ennio Morricone, em 3D

Para Ennio Morricone, em 3D

 

Em junho de 2006, no Teatro Viriato, um homem plano, de duas dimensões, de smoking preto e sapatos de salto alto forrados a lantejoulas vermelhas, raptava 72 espectadores de três dimensões num autocarro da empresa União de Sátão e levava-os pelas ruas de Viseu para um armazém vazio.  Este homem plano era um ponto, ou pixel, e vivia nos livros, ou nos filmes, deslizando pelas letras, ou pelas imagens, sonhando com a realidade das histórias que ali se contavam e que nunca tinha experimentado. 

Um dia, repara numa impressão digital deixada no cantinho de uma página por um leitor de carne e osso e percebe que há mais mundos além do seu, e com mais dimensões. Determinado a conhecer esse outro lugar, estuda a vida desses seres que têm impressões digitais e que conseguem andar para cima e para baixo, enquanto ele, singelo, só consegue existir numa folha ou em pantalha planas. Ou pior: só consegue existir se for visto por esses espantosos seres. No armazém, e durante uma incansável hora e meia, Anton Skrzypiciel, o bailarino e ator australiano deste espetáculo – Trilogia Flatland – exibia os seus dotes de performer para os seus espectadores prisioneiros. Dançando, cantando, servindo cocktails, declamando monólogos, apresentando concursos ou cortando a sua assistente, eu, a Patty, em dois e em três mirabolantes números de magia. Sabendo que um ponto só pode existir no nosso mundo 3D, se nós, espectadores 3D, olharmos para ele, o homem plano confundia terrorismo com ilusionismo, teatro com realidade, e entretinha-nos com todo o tipo de faits divers. Revoltado contra a sua limitada natureza, este homem falava-nos da nossa: da sorte que temos em sermos de carne e osso.

Os espectadores-reféns, que assistiam em loop aos seus números de entretenimento, bebiam os seus martinis, respondiam às suas perguntas, e acabavam por ser salvos pelo rapaz das pizzas que todas as noites entrava no armazém de forma espampanante, de mota, seguido de uma equipa de atores-bombeiros que ajudavam os espectadores a sair do local do crime  por uma manga (como a dos aviões em caso de emergência), e os embrulhava em cobertores térmicos ao som de helicópteros imaginários e de «Chi Mai» de Ennio Morricone. 

Na segunda-feira, o compositor das bandas sonoras dos filmes que via com o meu pai partiu para uma dimensão que nós, aqui, ainda não dominamos. Qual cowboy do cinema, o italiano Ennio Morricone faleceu aos 91 anos. 

Esta semana falhou-me Hígia e perdi uma musa. Não a posso deixar ir sem lhe prestar uma homenagem ao lado do meu querido homem plano. Aquele cujo único sonho era afinal e só… ser humano!

Querido Ennio Morricone, quando for a minha vez, tocas esta para mim?

(Para ouvir ao som de «Chi Mai», em Le professionel, de Ennio Morricone em https://www.youtube.com/watch?v=DbHP9NtSnB0)

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