11 Ago
Viseu

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Cultura

Magazine Teatro Viriato | Ep17 Tocar neste Verão como Cézanne

CLIPS ÁUDIO

2020

Ep17 | Tocar neste Verão como Cézanne

Tocar neste Verão como Cézanne


Se eu olhar com atenção para o prato que está sobre a mesa naquele quadro de Cézanne, reparo que as maçãs não estão lá todas ao mesmo tempo. O sol não brilha em todas vindo do mesmo lado. O reflexo da luz denuncia que umas foram pintadas de manhã, outras terminadas à tardinha, outras no horário impossível da imaginação. O tempo passa pelas coisas, pela paisagem, pelas pessoas e move-as. Cria-lhes novas sombras. Novos fantasmas. Por vezes impasses, mistérios, revelações. Cézanne pintava naturezas-mortas porque gostava de coisas vivas. Para ele, morta estava a Europa, perdida nas suas trincheiras e nos seus soldados insones. Não a sua toalha que inspirava alimento. Não as suas maçãs que irradiavam luz. Cézanne, o pintor, virava costas a um mundo morto para pintar as suas montanhas vivas. Pintava para se recusar. Esperem. Minto. Um pintor não pinta. Um escritor não escreve. Um artista não cria. A mente não pinta. A pessoa não pinta. É a mão que pinta o invisível que um corpo pensa quando vê outro corpo. Pintar é pensar com as mãos, escrever é pensar com as mãos. Pintar é dar as mãos, é como beijar, exige reversibilidade. Quando apertas a mão, tocas e és tocado. Quando beijas uma boca, beijas e és beijado. Habitas dois corpos com uma mesma acção. Sentes o outro, és o outro, o olho e a montanha, a minha mão e a tua mão. Há poucos lugares como este, onde se pode ser mais do que um.

Pintar, escrever, criar, é caminhar para este acto recíproco, confiando que, do outro lado, nos estendem uma mão. 
Este é já um Verão atípico. Fechamos as contas, os relatórios, as escolas, os assuntos pendentes, e viramos costas a uma vida que, para muitos, é só o sustento para outra, melhor, que tarda em chegar. Paramos para contemplar o Caramulo de Cézanne ou de Columbano Bordalo Pinheiro. Paramos. Mas com o dever de colocar o cavalete no lugar certo para começamos já a desenhar a paisagem do nosso próximo Outono.

Com a inspiração das musas. Com a força de Hígia, deusa da saúde, limpeza e sanidade.  Com o desejo dos reencontros recíprocos, mútuos.

Até já, até à nova temporada!

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