12 Jun
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Ensinar e aprender música através de um computador

por Redação

06 de Junho de 2020, 08:30

Foto Arquivo Jornal do Centro

A pandemia Covi-19 obrigou todo o mundo do ensino escolar a se adaptar a uma nova realidade: o ensino online. O ensino musical não foi exceção, mas de que forma se ensina e aprende música através de um computador?

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Daniel Simões, professor de Piano, Canto e Teoria e Análise Musical no Colégio da Via Sacra, em Viseu, e na Escola Profissional da Serra da Estrela, confessa que dar aulas à distância “tem sido uma verdadeira odisseia”. “Numa quinta-feira, fomos informados de que as escolas iriam fechar portas, na segunda-feira seguinte, subitamente, vemo-nos numa situação de confinamento em que a única alternativa é lecionar à distância”, lembra. O professor explica ainda que de início o processo de adaptação não foi fácil mas que, com o tempo, foi encontrando as estratégias certas para que os alunos saíssem o menos prejudicados possível com a situação, acrescentando ainda que “em termos de organização é, claramente, muito mais trabalhoso e, por vezes, stressante, pois há todo um conjunto de materiais e tarefas que é necessário fazer chegar a cada aluno individualmente para se poder desenvolver trabalho. Isso requer uma grande concentração e organização para que não haja falhas, quer na planificação das tarefas, quer na correção e entrega das mesmas”.

Marco Pereira, professor de guitarra clássica no Conservatório Regional de Música de Viseu Dr. José Azeredo Perdigão, tem preparado as suas aulas de uma forma diferente para que os seus alunos se sintam motivados, como, por exemplo, “através da criação de pequenos jogos, questionários, consultas de vídeos sobre guitarra na internet, abordagens a outros estilos musicais, entre outros”.

Apesar de a adaptação a este novo método de ensino ser cada vez maior, continuam a existir alguns entraves que dificultam a aprendizagem. Rodrigo Santos, aluno do Conservatório Regional de Música de Viseu Dr. José Azeredo Perdigão, explica que as falhas de internet têm sido, até ao momento, a maior dificuldade em ter aulas online. “Como toda a gente sabe, a internet nem sempre nos possibilita chamadas com ótima qualidade e, no caso da música, muitas vezes o áudio sai com cortes, ou de vez em quando, a velocidade acelera ou diminui, o que nos prejudica, por exemplo, quando estamos a tocar todos juntos, em classe de conjunto”, exemplifica o estudante. Para o professor Daniel Simões, para além dos problemas a nível de Internet também têm surgido dificuldades na aprendizagem dos alunos mais novos, onde o ensino presencial ocupa uma posição de extrema importância. “O mais difícil para mim são, sem dúvida, as aulas de instrumento dos alunos mais pequenos - 1.º e 2.º anos. Devido à sua tenra idade, ainda não dominam a linguagem musical, ou seja, não conseguem fazer uma associação dos símbolos musicais ao seu significado e, por isso, são necessárias tarefas como apontar na partitura, ajudar na marcação da pulsação, correção da postura, que, à distância, se tornam quase impossíveis”, refere.

Já para o professor de guitarra clássica Marco Pereira, para além de dificuldades técnicas, existe também o fator do desgaste físico e psicológico que este modelo de ensino implica. “Não posso deixar de parte a dificuldade física e mental que tem sido para mim, por ter de passar horas consecutivas sentado ao computador dando as aulas com um tom de voz normalmente acima da média e outras tantas horas corrigindo atividades e comunicando com toda a comunidade escolar”, desabafa.

José Carlos Sousa, diretor pedagógico do Conservatório Regional de Música de Viseu Dr. José Azeredo Perdigão, conta que devido às dificuldades de comunicação que este novo modelo de ensina tem levou a que a escola tomasse medidas de forma a compensar a situação, como por exemplo, os professores pedirem aos alunos para gravarem peças/exercícios que são enviadas para os docentes. Contudo, as aulas de conjunto são as que mais dificuldades enfrentam e que menos soluções têm. “Nas aulas de turma, o trabalho é muito mais complicado pois não é possível em nenhuma plataforma informática que os alunos toquem em conjunto e o professor em sua casa os possa ouvir e orientar. Neste contexto os alunos fazem um trabalho individualizado das peças que estão a trabalhar e não em conjunto. É claro que aqui há um prejuízo evidente, em todas as orquestras e grupos de música de câmara só podemos fazer o trabalho individual de cada um e não o trabalho de grupo que é importantíssimo”, explica o diretor que acrescenta ainda ser normal existirem algumas dificuldades devido à rapidez com que este método de ensino foi implementado. “Quando se implementa em tempo record um novo sistema de comunicação entre alunos/professores, há sempre dificuldades, pois não tivemos possibilidade de fazer formação de professores para a utilização destas plataformas e alguns professores apresentaram algumas dificuldades que fomos ultrapassando. Os alunos, com a ajuda dos encarregados de educação, no geral, conseguiram adaptar-se bem a este novo modelo de comunicação”, salientou.

Estas dificuldades e a mudança quase súbita de método de ensino é algo que na opinião de Daniel Simões prejudica tanto alunos como professores. “Sinto que todos estamos a sair prejudicados. Os alunos repentinamente deixaram de trabalhar segundo os processos metodológicos de ensino a que estão habituados e, por isso, muito tempo foi investido na habituação a esta realidade. Por outro lado, os professores tiveram de se reinventar e fazer tudo o que lhes era possível de forma a minimizar as consequências negativas desta modalidade de ensino que se abateu abruptamente sobre todos nós. Isso implicou um trabalho redobrado e que, por vezes, não correspondeu às nossas expectativas enquanto docentes nesta nossa missão que é ensinar”, sublinha.

Para o docente Marco Pereira, as dificuldades variam um pouco de aluno para aluno. “Alguns conseguem captar e aplicar rapidamente as indicações pelo que têm completado com sucesso as tarefas, outros demoram mais tempo a perceber o que é pedido, sinto que precisam mesmo da presença de um orientador na aula e de uma motivação constante para manter o foco”, realça.

“É muito diferente estar a ouvir o professor a tocar e, cada um em sua casa, de auscultadores nos ouvidos, apenas tocar com ele, em vez de ouvirmos todas as pessoas a tocar em conjunto na mesma sala”, salienta o aluno do Conservatório Rodrigo Santos, que acrescenta ainda que, na sua opinião, neste momento, seria possível realizar aulas presenciais cumprindo todas as normas de segurança. “Considero que as aulas individuais poderiam acontecer, usando máscara e respeitando a distância de segurança do professor. No caso da classe de conjunto, poder-se-ia considerar a opção de termos aulas em salas maiores e com menos alunos de cada vez”, diz. O docente Daniel Simões, apesar de não considerar este método de ensino como “ideal”, frisa que foi a única solução possível e que permite “que os alunos continuem a trabalhar, pois na aprendizagem de um instrumento musical a prática diária é muito importante”.

Uma das queixas mais recorrentes nos últimos tempos quanto a este novo método de ensino prende-se com o facto de existir um elevado número de trabalhos a realizar pelos alunos. “Sinto-me um pouco mais sobrecarregado, mas compreendo também o ponto de vista dos professores”, refere Rodrigo Santos que acrescenta ainda que esta sobrecarga surgiu devido ao facto de terem menos tempo de aulas. O professor de piano e canto, Daniel Simões, concorda que houve um aumento ao nível da realização de trabalhos tanto para alunos como para professores, situação que diz ser causada devido às alterações repentinas nos métodos de ensino/aprendizagem. “A sobrecarga é maior para alunos e professores, penso que isso se deve em grande parte ao facto de termos entrado nesta modalidade de ensino de uma forma abrupta, sem qualquer tipo de formação ou orientação pedagógica prévias. Contudo, com o decorrer do tempo, creio que os professores se foram ajustando de forma a corresponder de forma mais eficaz às necessidades individuais de cada aluno”, explica. Marco Pereira assume que, desde a mudança para o online, tem dedicado mais tempo ao trabalho, mas que o facto de trabalhar através do computador fez com que se deixasse de perder tempo em deslocações o que permite uma maior flexibilização de horários.
 

E no futuro, como vai ser?
 

Em cima da mesa está a possibilidade do próximo ano letivo decorrer com alguns dos moldes atuais, situação que engloba todas as áreas de ensino, incluindo a área musical. Daniel Simões considera que, caso esta hipótese seja colocada em prática, tanto professores como alunos já “levam uma bagagem muito maior” para esta nova realidade. Contudo. o docente não vê o método de ensino online como um substituto do modelo presencial, nomeadamente “em matérias de componente prática, como é a disciplina de um instrumento musical”.

Com uma opinião similar, Marco Pereira diz que é possível manter este método de ensino, de forma parcial, mas que os seus atuais entraves obrigariam à realização de algumas aulas presenciais. “Este regime obrigou-me a reinventar as aulas e a aprender com isso. Não obstante, a qualidade técnica insuficiente das reuniões online, obrigará sempre a que hajam aulas presenciais, pelo menos de 15 em 15 dias”, sustenta.

“Eu preferia ter novamente aulas presenciais, mas, se tiver que ser para nos mantermos seguros, teremos de nos contentar com estes moldes. No caso do ensino musical, penso que seria mais vantajoso termos aulas presenciais”, salienta, por seu lado, o jovem estudante Rodrigo Santos, que acrescenta ainda que espera que todos cumpram as normas de segurança para que o próximo ano letivo volte aos seus moldes habituais. “Temos que mudar alguns hábitos, reforçar as medidas de higiene das mãos, habituar-nos a usar máscara e, se todos nos esforçarmos por cumprir estas regras, não me vou sentir receoso em voltar à escola. Espero que em setembro o ano letivo comece com a máxima normalidade possível”, desabafa.

Para o futuro, os docentes Daniel Simões e Marco Pereira mostram algum receio que o interesse por parte dos alunos para ingressar na área musical diminua e também que se registe um maior número de desistências por parte de outros que já frequentam esta área de ensino. “Tenho receio de que nos próximos tempos haja um decréscimo de alunos interessados em aprender música e que, de certa forma, a desmotivação por parte de atuais estudantes seja cada vez maior e possa levar à desistência da aprendizagem do instrumento”, explica Daniel Simões.

O professor mostra-se confiante de que, quando toda esta conjuntura terminar, os professores terão consigo novas ferramentas de ensino e estarão, certamente, aptos para enfrentar os novos desafios do ensino.

Questionado sobre a possibilidade de este método de ensino se manter no próximo ano letivo, o diretor pedagógico do Conservatório José Carlos Sousa considera que é uma possibilidade viável, mas referiu que existem algumas disciplinas que necessitam de ser presenciais. “Penso que as aulas de instrumento deveriam decorrer de forma presencial, pois só temos um aluno e um professor em cada sala de aula. As aulas de Orquestra, Coros e Grupos de Música de Câmara deveriam também ser presenciais para que os professores possam trabalhar o resultado musical do Grupo e não só a parte individual de cada aluno. As aulas teórico-práticas de Formação Musical, Composição, História da Cultura e das Artes ou Acústica poderiam continuar a ser desenvolvidas como fazemos atualmente online”, refere o diretor que terminou dizendo que “independentemente da forma que vier a ser definida pelo Ministério da Educação, o Conservatório de Música de Viseu está preparado para dar continuidade ao trabalho de qualidade que tem vindo a desenvolver e que é reconhecido”.

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