14 Set
Viseu

Emília Rodrigues - Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica, UCC Viseense

OPINIÃO

Falar sobre suicídio, faz sentido? Sim…

11 de Setembro de 2020, 17:00

CLIPS ÁUDIO

O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio comemora-se anualmente a 10 de setembro. Esta iniciativa foi criada em 2003, pela Associação Internacional de Prevenção do Suicídio, apoiada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Visa promover o esclarecimento acerca do suicídio, através da disseminação de informação e diminuição do estigma existente em relação a esta temática. Além disso, esta efeméride procura, sobretudo, difundir a ideia de que o suicídio é, na maioria das vezes, prevenível.

Segundo a OMS, todos os anos a nível mundial, suicidam-se cerca de 800 mil pessoas, uma a cada 40 segundos. Em Portugal registam-se, segundo dados de 2018 da Sociedade Portuguesa de Suicidologia e do Instituto Nacional de Estatística, cerca de 8 casos por 100 000 habitantes/ano, ou seja, mais de 800 novos casos todos os anos. O suicídio é a segunda causa de morte nos jovens entre os 15 e os 29 anos.

O Suicídio é o ato de causar a própria morte de forma intencional e representa muitas vezes uma fuga a uma situação de intensa angústia e sofrimento para a qual, na mente do indivíduo, não há outra saída nem solução possível. Uma larga maioria dos indivíduos com ideação suicida tem dúvidas quanto à decisão de terminar a sua vida e, de alguma forma, anseiam por ajuda para poder escolher não morrer. A intenção da pessoa que pensa em suicídio é acabar a insuportável dor psicológica e não pôr termo à vida!

Falar sobre suicídio é particularmente desafiador. Parece que, semelhante a tantas outras situações de vulnerabilidade psicológica, para as quais preferimos olhar apenas disfarçadamente, o silêncio funciona como mais uma “máscara” que visa esconder uma realidade de profunda dor, misturada com sentimentos de vergonha, estigma e diferença… Isto porque existem muitas ideias erradas e mitos que é importante desmistificar:

  • “Tem que se ser louco para se pensar no suicídio!”. A maioria dos suicídios e das tentativas de suicídio é feita por pessoas inteligentes, que exigem muito delas próprias, especialmente em momentos de crise;

  • “Apenas certo tipo de pessoas comete suicídio”. Todo o tipo de pessoas comete suicídio, tanto homens como mulheres, novos e velhos, ricos e pobres, pessoas de meios rurais e meios urbanos. Ocorre em todos os grupos raciais, étnicos e religiosos, sem distinção.

  • “Quem avisa não o faz e quem o faz não avisa”. Dois terços dos indivíduos que morreram por suicídio falaram previamente a alguém sobre as suas intenções.

  • “Debater ou falar sobre ideias suicidas aumenta o risco de cometer suicídio”. Está comprovado que debater sobre ideias suicidas diminui o risco de comportamento suicidário, se as questões forem diretas, feitas de forma sensata, numa postura de escuta, procurando perceber como podemos ajudar.

  • “As pessoas que tentam suicidar-se estão apenas a chamar a atenção”. Cerca de 40 a 60% dos indivíduos que morreram por suicídio fizeram uma ou várias tentativas previamente.

  • “Uma pessoa que tenha tentado suicidar-se não volta a tentá-lo”. As pessoas que fizeram tentativas prévias têm maior risco de praticar o suicídio.

A grande maioria das situações de suicídio está associada a perturbações mentais, nomeadamente a perturbações depressivas. Estas perturbações podem estar relacionadas com problemas de stress do dia-a-dia, situações de desemprego, dívidas, crises familiares ou financeiras, solidão ou perdas marcantes de familiares ou amigos. Em períodos em que as pessoas estão mais expostas a níveis de stress e pressão que perturbem o seu bem-estar, o número de suicídios aumenta.

Ajudar estas pessoas é possível, além de ser crucial estar atento aos sinais, é também importante apoiar, orientar, ouvir e aconselhar. Procurar ajuda de um profissional de saúde especializado é a melhor forma de evitar estas situações e garantir que o sofrimento psicológico é atenuado.

A dor de morte pode ser vencida e ultrapassada, sei que é difícil, mas vale a pena acreditar!

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