Filipa Jesus

19 de 03 de 2021, 19:16

Fotorreportagem

As vidas que não se perderam na tragédia de Santa Comba Dão

Vinte anos após o acidente de autocarro com peregrinos de Fátima, a tristeza na freguesia de Travassós de Cima, em Viseu, ainda prevalece. Se alguns decidiram “continuar com a vida”, outros nunca deixaram a tristeza de lado. Quatro pessoas recordam a tragédia na primeira pessoa

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Ana Néri está no quintal com o marido, Manuel Néri, a cortar alguma lenha para empilhar na garagem que os contorna. O portão grená preenche-nos o olhar, mas não deixamos de lhe seguir os movimentos. Ao aperceber-se da nossa presença, aproxima-se entre passos silenciosos e reticentes. Caminha por um estreito trecho do terreno e encosta-se ao gradeamento que delimita a casa. Quando soltámos as palavras - ‘acidente de Santa Comba Dão’- o corpo franzino de Ana estremeceu e um pesado suspiro preencheu o ambiente. O olhar também humedeceu e a voz ganhou uma nova rouquidão. Sabemos que foi uma das sobreviventes. Antes de conversarmos, percorremos Travassós de Cima, no concelho de Viseu, a freguesia à qual o acidente roubou a vida de 14 residentes, que retornavam de uma excursão ao Santuário de Fátima, a 24 de março de 2001.

Instalou-se um ambiente leve, mas ao mesmo tempo angustiante. Testemunhámos um longo pesadelo, do qual parece que é impossível despertar. Há a sensação de vazio por todos aqueles que não se conseguiram salvar. Quem sobreviveu, não deixa de acreditar que “foi milagre”, lança Ana Néri, de 69 anos, uma das sobreviventes do acidente de Santa Comba Dão, que não deixa de acreditar que “não estava preparada para ir embora”.

Foi naquela curva, do IP3, próxima da Quinta da Memória, que se desenhou o destino dos peregrinos que retornavam de Fátima. Perto das 20h00, “não sei bem”, Ana perguntou ao seu conterrâneo, Álvaro, onde iam e se já tinham ultrapassado a barragem que tinha morto 59 pessoas, semanas antes. Em tom de brincadeira, devolveu-lhe uma simples resposta: ‘vamos no autocarro’. Instantes depois, “o meu marido ligou-me e levantei-me para ouvir melhor o telemóvel e a minha sensação foi só do autocarro dar aquelas guinadas”, descreve, adiantando que só se recorda de dizer que iam bater porque “de resto, não sei se o autocarro tombou para a esquerda ou para a direita”.

Cada batida significou a projeção de passageiros, o desbravar da vegetação e a destruição de todo o autocarro. Ao embater no fundo da ribanceira, instalou-se um cenário de puro sofrimento. Corpos dispersos, gemidos penosos e a luz da noite a tornar tudo mais negro. “Quando vim a mim, estava num ladrilho com a cara num paralelo, uma pessoa muito forte em cima de mim e com as mãos estendidas. Só dou conta das lanternas dos bombeiros e calcaram-me as mãos”, relembra Ana Néri, adiantando que foi nesse momento que foi socorrida, “mas só procurava pela tia Valentina e pela Rosa, por quem vinha ao pé de mim”.

Foi das últimas a chegar ao Hospital de Viseu. Tinha apenas um ferimentos na coluna e na perna que, infelizmente, “foi uma mazela que ficou do acidente e vai ficar para toda a vida”, lamenta a sobrevivente, reforçando que “graças a Deus, já tenho seis netos e a vida continuou”.

Não esquece o pior do acidente: a perda de quem gostava. Ainda hoje, “olho para a filha da Rosa e só me dá vontade de chorar”, admite. O vislumbre de que poderiam ser os seus filhos na mesma posição transforma-se numa aflição profunda, sem um fim bem nítido. “É dar graças a Deus”, remata.

Já passavam dez minutos das quatro da tarde, quando encontrámos António Mesquita Néri, marido de Rosa Almeida, uma das 14 vítimas mortais e amiga de Ana Néri. Repousava num dos bancos do Largo do Soito, no centro da freguesia de Travassós de Cima. Suspiro atrás de suspiro, relembra um dos piores momentos da sua vida: o dia em que perdeu a sua mulher. Quando soube do acidente, “chamei logo o meu filho e a minha filha e fomos todos para o hospital ver as ambulâncias. Vinha uma, vinha duas… Exaltei-me muito, disse coisas que não devia de falar”, lamenta António.

As ambulâncias pararam de chegar e ouviu-se ao longe: “o resto estão todos mortos em Santa Comba”. Continua sem compreender como é que “ao vir de uma festa religiosa, foram para a morte”. O mais difícil? “Perder a mulher muito cedo e com uma filha ainda por formar. A vontade da minha mulher era ela ter uns estudos bons, ela tinha uma boa cabeça e aproveitou. Se fosse viva, ui… Nem faço uma pequena ideia do que podia ser ao ver assim a filha”, assinala, entre sorrisos tímidos, reconhecendo que a população sempre apoiou quem perdeu quem mais gostava.

Contaram-lhe as últimas palavras de Rosa: “levo muita pena do meu marido, mas levo a minha neta no coração”. Na verdade, “isso ainda acabou comigo”, estremece.

Entre os becos de Travassós, conhecemos também Lurdes Lourenço, de 70 anos. Não chegou até ao Santuário de Fátima, “mas também estava inscrita, a excursão era no sábado e na quinta-feira disse que não podia ir para preparar as coisas”, lança, acrescentando que “foi um casal de jovens no meu lugar e do meu marido”.

Ainda assim, “quando soube do acidente, fiquei muito triste e desde aí muita gente nos telefonou a pensar que também ia. Graças a Deus, fiquei cá ou foi um aviso de Deus”, suspira, sem esquecer “o funeral das pessoas todas juntas a passarem para o cemitério, foi uma profundidade de tristeza”.

“Vinham da Terra Sagrada”, e muitos foram os que deixaram de frequentar a Igreja “porque não era suposto acontecer aquilo”, mas aconteceu. Sente-se a ausência humana e a saudade permanece entre todos. Todos os anos, “na imagem de Nossa Senhora, a gente põe umas velinhas por quem partiu nesse dia”, refere, “ficou marcado para sempre”.

Recuámos 20 anos e regressámos ao local do acidente com o ex-comandante dos Bombeiros Voluntários de Santa Comba Dão, Rui Santos. “Foi um dia trágico para a nossa memória, enquanto bombeiros”, atira, sem que lhe tenhamos perguntado. O número de vítimas mortais teima em não desaparecer do pensamento de Rui Santos.

Contou-nos cada detalhe do dia 24 de março de 2001. Estava a caminho dos Bombeiros de Santa Comba Dão, a cerca de 15 quilómetros, "quando recebi um telefonema a dizer que havia um acidente muito grave. Dali, comecei logo a inteirar as primeiras equipas para o local e do que era necessário”, conta, adiantando que, de imediato, começaram “a fazer a triagem de todos os sinistrados, o que foi muito importante”.

O ex-comandante dedicou-se à gestão de toda a logística necessários, de acordo com os pedidos do local do acidente. “Era preciso de tratar de muita coisa, de gruas, articular com as forças de segurança para abrirem caminhos para as ambulâncias do Centro de Saúde de Santa Comba Dão que, na altura tinha uma pequena urgência, e também para o Hospital de Viseu”, explica, reforçando a importância da triagem para “não entupir as urgência dos hospital com tanto volume de feridos”.

Na altura, as corporações de bombeiros de Mortágua, Tondela, Carregal do Sal, Nelas, Mangualde também foram solicitadas para o local. “Todas as corporações vieram para aqui porque efetivamente o autocarro ficou numa ravina, sem grandes acessos e tínhamos que trazer até à estrada em maca todos os feridos”, refere.

Entre silêncios profundos, Rui Santos recorda relatos que quem chegou primeiro ao local. “O autocarro caiu na ravina e, portanto, não havia luz até montarmos os primeiros holofotes e ao descer realmente fazem relatos de gritos lacerantes a pedir socorro, agarrarem-se às pernas”, confessa, “realmente, foi uma coisa que ficou para muito tempo na memória de todos os bombeiros”.

Para o ex-comandante, os 20 anos “de um acidente tão trágico” é um bom momento “para lembrar aqueles que aqui pereceram”, remata.

O conhecido acidente de Santa Comba Dão envolveu mais de 100 operacionais, entre bombeiros, forças da GNR e outras autoridades.

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